Acerca da arte e do medo de morrer ou o ser medo de morrer.
Morrer é uma arte, é uma façanha, é a mais elevada criatividade do ser humano: nada a supera em intensidade, nada lhe falta em precariedade - arte a que nada lhe é estranho. Mas quem a compreende como artimanha, ardilosa e fraudulenta, vive no medo de morrer, morrendo amedrontado.
O medo é o obstáculo à autenticidade da arte, do que se apresenta como um acto de criatividade, de unicidade, de singularidade de quem morre. Medo é uma reacção imediata e explosiva a uma ruptura, não a compreensão da beleza e do inventivo dessa ruptura, isto é, da arte.
O morrer como arte é uma expressão kairológica de que este e este ou aquele e aqueloutro momento são os momentos oportunos, certeiros e adequados para a realização do acto; momentos em que o tempo de ser e de agir coincidem, em que são transcendentais um para o outro.
Veja-se que a própria língua ajuda. Diz-se: «ter medo de morrer» e nunca «ser medo de morrer». O medo parece recair sobre uma posse, sobre qualquer coisa de «ter» - que escapa sempre e nunca se tem, jamais -, de «ter» que põe e dispõe em cada momento, mas que a nenhum se transpõe.
O «ser medo de morrer» é uma arte que não está ao alcance do primeiro que chega e difere da «arte de morrer». O «ser medo de morrer» é indizível porque o seu sentido está além deste Mundo, transcende-o valorativamente e não é caso de preferência. Essa dimensão de ser é a de ser fronteira – de um lado isto, do outro aquilo, de nenhum lado ser, ser absoluta e diferentemente – fronteira.