De novo em viagem! Vou e venho, e o que levo trago. Como se preenche o imenso? Onde se se encontra o fundo do abismo? Como se convoca a voz do silêncio? No limiar da vida perdi-me do caminho, no meio da floresta, junto à escuridão de trilhos. Há somente a sensação cada vez mais vasta do largo, do amplo e do sem-fim. Locais e momentos, gentes e línguas, culturas e países. Assusta-me a vontade, cada vez mais presente e impertinente, de por um fim a tudo isto. De dizer basta!, e decepar pela raiz a seiva da vida. Se eu fosse a possibilidade pensada e querida, até mesmo acreditada, de deixar de ser, será que em todo este vasto imenso sem-fim haveria um eco da minha ausência ou o sinal da minha presença?
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Bocados de um Diário – Em viagem ] Zurique [
De novo em viagem! Vou e venho, e o que levo trago. Como se preenche o imenso? Onde se se encontra o fundo do abismo? Como se convoca a voz do silêncio? No limiar da vida perdi-me do caminho, no meio da floresta, junto à escuridão de trilhos. Há somente a sensação cada vez mais vasta do largo, do amplo e do sem-fim. Locais e momentos, gentes e línguas, culturas e países. Assusta-me a vontade, cada vez mais presente e impertinente, de por um fim a tudo isto. De dizer basta!, e decepar pela raiz a seiva da vida. Se eu fosse a possibilidade pensada e querida, até mesmo acreditada, de deixar de ser, será que em todo este vasto imenso sem-fim haveria um eco da minha ausência ou o sinal da minha presença?
Memórias de Viagem – Em pleno voo de ida ] Zurique [
A que alturas sobe o homem! Sobre a Ibéria, um manto de nuvens brancas acinzentadas adornam as montanhas e servem de albergue aos adormecidos tojos. O isolamento vê-se melhor do alto. Gente aqui; gente além; de um lado e do outro enérgicas bandeiras de terra erguida, tesa, retesa a investir contra o céu. E a isto chamam céu. Não vejo Deus; não o sinto; não o cheiro; até o céu, na sua imensidão, é a ausência de Deus. Nem ele coube nesse lugar tão largo, grande, astronomicamente imenso. Até onde as raízes madeirenses podem ser esticadas?
terça-feira, 27 de novembro de 2007
] § [
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Caderno de Apontamento – Ilha Terceira: Angra do Heroísmo
Dirijo-me à janela do meu quarto de Hotel, abro-a e é o mar que me visita – não o mar feroz e agreste, indomável e violento da minha terra, onde me deixaste a morrer, recordo-me como se fosse amanhã – e o céu cinzento sobre o mar azul, o banho de espuma na costa e na areia negra são os degraus de uma alma que se sabe descansar.As ruas estreitas e largas, com nomes conhecidos e outros desconhecidos, estórias e histórias que elas contam; o som das vozes e do comércio, a lota do peixe fresco e dos carros na calçada, são imagens de adormecer, sob uma chuva ténue que cai sobre o meu pesado rosto de viver.
Um jardim cantoneiro à cidade, com árvores e plantas e tantas coisas com nome: sentei-me junto a uma magnólia roxa. Procurei descansar ao sabor dos cheiros e do vento que soprava entre o descanso da chuva. Tenho a terra das ilhas entranhada na minha alma. Sou um ilhéu com o tamanho do mundo. Não tenho pontas nem oceanos, não sou de penínsulas nem de continentes: sou uma ilha e o universo é o mar que me banha – foram as tuas palavras, junto ao calhau, quando a morte te me visitou, na presença minha, a tua ausência foi pó das estrelas, onde fiquei, foi onde a tua ausência fez-se notar; rasgaste-me de lágrimas, lancetaste a minha alma, fizeste meu sangue jorrar como uma cascata a teus pés; onde tudo foi morrendo, foi meu corpo que se dissipou; onde tudo foi o que quiseste, fui eu que fui imensidão: ao teu colo, o meu sono de descanso foi planície; regressa de novo, novamente, onde não pode jamais haver retorno; onde o tempo passa, tudo é precipícios abissais de quedas sem fim.
Angra do Heroísmo: o atlântico como casa e a terra como refúgio. Ali vi o mar e a terra, vi o verde e o azul. Ali senti de novo a ilha. Ali fui ver a seara da morte: e estava viçosa!
domingo, 18 de novembro de 2007
Caderno de Apontamentos – Ilha Terceira: Praia da Vitória
Como é largo e imenso este Portugal!quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Caderno de Apontamentos - Bruxelles au Metro
Apanho o metro em Annessens: direcção à Gare du Nord; saio em Rogier, apanho outro metro em direcção a Clémenceau e saio na estação Madou. Estações sujas. Frias. Velhas. Gente. Multidões. Um labirinto de linha férreas debaixo da terra – zummmm.... zzzzuummmm... plimm ppplllliiiiiiiimmmm – e um papel na mão para não me perder. Há um sentimento de solidão quando se anda de metro; de solidão e de amargura. As linhas férreas parecem uma prisão de destinos, somente aqueles e mais nenhuns; não há opção senão as predefinidas; as saídas de metro mais parecem dilemas existenciais: onde irão dar realmente?! Um caminho de subterrâneos que ora sobem, ora descem, onde se sentem odores animais e naturais, a café e a bolos – não, nada a ver com Belém... – e caras sem expressão, sem tristeza nem alegria, apenas caras.
Saio em Madou. Olho o edifício Madou, na Place Madou – quem diabo foi Madou, se foi pessoa? – que imponência de vidro se ergue aos céus – sinto frio, está frio, sentes frio, eu sinto e está vento, um ventinho inconfortável –; movimento-me, espero junto à passadeira, dirijo-me para este palácio de cristal e preparo-me para o apertado cerco de segurança – aliás, não deveria ser a existência a ser objecto de segurança? Por que é que são os artefactos somente os únicos considerados possíveis armas de ataque, armas brancas ou massivas? O segurança não quer saber disso, não faz parte; bom, que entre tudo e que fique o material cá fora – e dou o meu nome e a minha identificação completa, verificam no computador, mandam-me entrar por uma porta, que leva a outra e a outra de seguida e virando à esquerda, apanho o elevador, quando dou por mim, estou no nono piso.
E tudo começa: God morning! How are?! Welcome, I’m pleased to see you again in Bruxelles! How is the weather in Portugal?. Bom, apetece-me voltar para o Metro...
sábado, 10 de novembro de 2007
Caderno de Apontamentos – Bruxelas (Bélgica)
O aeroporto estava vazio e, por um momento, parecia que o mundo inteiro cabia ali, naquela imensidão em altura e largura. Bruxelas, 01h00m. Caminho sem pressas entre escadas que sobem e que descem para colher a bagagem. E quando a colho, puxo um peso existencial – parece que também somos o que levamos, tantas vezes me disseste, num olhar, num sorriso que fazia transparecer o tempo na tua face e que a face do tempo te me levou – até à porta do aeroporto e aproveito para fumar um cigarro, após várias horas de salubre avião e aeroporto, sem nicotina no sangue. Táxis parados. Negros. Parados. Gente. Diferente. Fisionomias. Países. Culturas. A existência. Tiro um cigarro, acendo-o e a primeira bafada tanto sabe bem como arde infinitamente, inflamando a alma. Táxis negros. Escuros. Lindos. Trajectos e outras direcções – a vida que se expande em ser vista, por tanto lado e de tanto lado. sábado, 6 de outubro de 2007
"Lágrimas correndo Mundo"
Sempre no encalço do horizonte e inveterado no telúrico que me viu parido. Vá para onde lá, veja o que vir, faça ou desfaça, tudo parece nunca ter saído donde vim: uma espécie de atracção invisível, onde o sangue e a terra foram um. Olho-te na lonjura e sou um dos teus calhaus: duro, vulcânico e salgado. E é nas tuas courelas, por vindimar, que encontro o meu pousio. Nas cepas degoladas é o sonho parido que fica a voar, no vento e na brisa. Ah... o mar e a serra enamorados, traídos e amantes. Uma força e fraqueza de braços dados. Gente. Morte. Vida.Uma sombra persegue-me.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Prenhe de morte – De artis et medus morior [ou o ser medo de morrer]
Morrer é uma arte, é uma façanha, é a mais elevada criatividade do ser humano: nada a supera em intensidade, nada lhe falta em precariedade - arte a que nada lhe é estranho. Mas quem a compreende como artimanha, ardilosa e fraudulenta, vive no medo de morrer, morrendo amedrontado.
O medo é o obstáculo à autenticidade da arte, do que se apresenta como um acto de criatividade, de unicidade, de singularidade de quem morre. Medo é uma reacção imediata e explosiva a uma ruptura, não a compreensão da beleza e do inventivo dessa ruptura, isto é, da arte.
O morrer como arte é uma expressão kairológica de que este e este ou aquele e aqueloutro momento são os momentos oportunos, certeiros e adequados para a realização do acto; momentos em que o tempo de ser e de agir coincidem, em que são transcendentais um para o outro.
Veja-se que a própria língua ajuda. Diz-se: «ter medo de morrer» e nunca «ser medo de morrer». O medo parece recair sobre uma posse, sobre qualquer coisa de «ter» - que escapa sempre e nunca se tem, jamais -, de «ter» que põe e dispõe em cada momento, mas que a nenhum se transpõe.
O «ser medo de morrer» é uma arte que não está ao alcance do primeiro que chega e difere da «arte de morrer». O «ser medo de morrer» é indizível porque o seu sentido está além deste Mundo, transcende-o valorativamente e não é caso de preferência. Essa dimensão de ser é a de ser fronteira – de um lado isto, do outro aquilo, de nenhum lado ser, ser absoluta e diferentemente – fronteira.
sábado, 29 de setembro de 2007
Prenhe de morte – um equívoco
Nada mais absurdo! Não existe relação entre uma coisa e outra: a morte diz respeito a um acto autêntico e a esperança a acções efectivas. Querer relacionar uma coisa com a outra é como querer ver uma relação causal entre a existência do copo e a existência de líquidos.
A impossibilidade de relacionar a esperança com a morte não é uma posição angustiante, nem deve sê-lo, mas tão-somente o reconhecimento que esse acto autêntico dispõe-se autenticamente enquanto absoluto. Falar de vestígios deste acto autêntico nas acções efectivas é outra coisa bem diferente: o absoluto da morte é tão puramente autêntico (note-se que mais universal que a própria razão, senão mesmo O universal por excelência) que é o fundamento – no sentido de Ab-Grund, o sem fundo, o abissal... – das acções efectivas.
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Prenhe de morte
Quem nos emprenhou de morte? Esta gravidez que se alonga pelo tempo, da cavidade uterina ao jazigo, inunda todos os gestos feitos, a fazer e por fazer. Não existe momento que não seja a expressão do morrer e do estar morto. E somos nos momentos, nas suas junções, nas suas síncopes e nos seus acontecimentos.
A morte é a criatividade da vida, na sua fecundidade, na sua ocorrência e na sua esterilidade. A morte é, igualmente, a corrupção da vida, no seu vazio, na sua possibilidade, na sua realidade.
Chegado o momento do parir, somos parturientes e paridos. E de um só rasgo, ensanguentados e cansados, das dores abençoadas de parir, lançamos na vida o suspiro de tarefa cumprida: o morto vem à luz do dia.
Quando for morto, o sentido emergirá no vazio, no nada, em algo.
Quando for morto serei o meu final.
Quando for morto.
[Somos a morte dentro de nós e somos prenhes de morte!]
Sempre.
terça-feira, 25 de setembro de 2007
One day... One room...

terça-feira, 18 de setembro de 2007
[sem título]
E o homem julga-se pelas suas acções e não pelas suas memórias. Mas não há memórias sem as acções que as sustentam – ou pelo menos pensamos que seja assim... e é no meio da vida que perdemos o fio à meada: longe está o início e o fim é incerto, uma caravela que no alto mar já não vê terra e o horizonte é sempre agora e ainda não...
Onde e quando é que tudo foi morrendo?
sábado, 15 de setembro de 2007
Intrigas - a sombra e o seu objecto

Suspensão na dianteira de mim. A sombra e o seu objecto tornam-se um.
P.S. – Dizem as más-línguas da minha aldeia que no seio de uma família mui nobre, reunidos à mesa, na hora da ceia - entre as colheradas de sopa –, levantou-se o filho mais novo e, de um só trago, disse: «Sou gay!», ao que a família respondeu: «Sirva-se do segundo prato! O seu mal é fome...»: a sombra e o seu objecto tornam-se um.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
Intrigas – Sobre o acto de dizer

De alguns anos a esta parte tenho defendido – contra algumas posições irredutíveis odeomainas – que há nessa «qualquer coisa» de verbalizável um tanto de incomunicabilidade. O que é da ordem do incomunicável vem à luz do dia acompanhado do verbo «ser» e o que é verbalizável com o verbo «agir». O busílis da questão encontra-se na impossibilidade de separar os dois verbos; de não poderem acontecer em tempos e espaços diferentes. Se assim é, parece-me, que o acto de dizer é sempre um acto kairológico em que o tempo de ser e a acção de acontecer congregam-se de tal modo que são autenticamente, para além da sua efectividade. Parece-me, ainda, que essa maravilha só acontece porque a razão é criativa e porque o tempo não é estático. Mas isto não elide o problema odeomiana: tudo é verbalizável! Aproveito, por isso, para questionar: o que seremos quando formos?
Se o dizer é uma tentação, ser é um acto erótico! A pessoa individual – continuamente em extinção e extintamente a continuar – é a exauração de ser erótica e tal como o erotismo carece de qualquer coisa, a pessoa extingue-se na consumação. Essa característica erótica do ser da pessoa é o que atrai, do passado, o «sido» e, do futuro, o «será»: ser eroticamente é ser horizonte, é ser o centro, duplamente potencial, do que no presente é o «sendo».
Ora, a conclusão é consequente: o acto de dizer é uma tentação erótica. É a tentativa de exprimir sensualmente o que é racional (no sentido da razão criativa que anteriormente falamos). E tal como o erotismo é um acto temporal distensivo, assim também o dizer é uma distensão no tempo. São precisos vários momentos, momentos distintos até, para que o próprio dizer seja efectivamente dito. Aqui sim há a comunicabilidade mais do que a verbalização; há mais a realização do ser, do que do agir. E sou tentadoramente erótico no «outro». E este «outro» concretiza-se na pluralidade, na diferença de todos os próximos que passam por nós, que nos atravessam, que nos rasgam na carne e que acalentam a nossa alma – que vem do futuro e nos abrem novas perspectivas ou do passado e curam as nossas feridas do presente. Parece-me que este modo de dizer e de ser edifica, sustentavelmente, a possibilidade, através dos «outros», da pessoa. Por isso, tudo o que «te-vos» digo é eroticamente tentador.
P.S. – Este texto não é ingénuo, mas, de igual modo, também não é completamente consciente.
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Sinais de Lisboa – Etiquetas

Mas se há coisa na qual sou esquisito é na compra de roupa: nunca tiveram a sensação que visitam todas as «capelinhas» e não encontram nada?! Epá, é cá uma frustração – para mim é cansativo, detesto mesmo – e ainda há mais: experimenta-se roupa, de tudo um pouco e ao gosto de cada um; e a primeira ideia que nos vem à cabeça é: «mas que diabo! Quem foi a criatura inteligente que desenhou ou concebeu esta roupa?» ou ainda «não existe nenhuma peça que me fique bem!?»: de um lado, as melhores peças já voaram pelos saldodependentes – ou por aqueles que tiveram um tiro de sorte – por outro, partimos sempre do princípio que o nosso corpo tem uma tal forma que não há roupa que lhe fique bem – já pensaram como existem pessoas em quem qualquer peça de roupa fica bem!? Acho isto irritante e deveria ser inconstitucional – hoje em dia tudo o que não se aplica a todos ou favorece uns e não todos é inconstitucional, parece-me politicamente correcto – ! Por mim, encontrar qualquer coisa que me satisfaça nesses dois aspectos é cá um bico d’obra! – enfim, esses seres devem ter nascido de cu para a lua.
Pronto, mas lá consegui comprar uma camisola às riscas – pretas e castanhas – que ainda não usei junto ao meu grupo de amigos, talvez por ser demasiado ousada – e eles dirão, espantados, «quem, tu?!, foste tu que escolheste isso?! Não parece nada teu!», mas lá depois acrescentam «fica-te muito bem!» e eu, claro está, fico com o ego preenchido de que ter andado horas à procura, não foi em vão! – mas podem ter a certeza que vou usar. Uma das coisas que me incomoda solenemente nas camisolas que compro – e vejam lá que não compreendo a razão de ser disso – é a etiqueta que trazem; agora até trazem às duas e às três, todas juntas e enormes, quilométricas! Fazem-me cá uma comichão junto à pele que nem imaginam: quem é que foi a criatura, de deus ou do diabo, que coloca lá isso, com indicações que ninguém percebe e quando percebe, regra geral, nunca batem certo: ou falha o país onde foram feitas (será isso importante: se estiver com um bom preço, tenho as minhas dúvidas…); ou a que temperatura devem ser lavadas ou engomadas (regra geral: é tudo lá p’a dentro e fé em deus!); e já nem falo do tamanho: existem S que são M e M que são L; e XS e XXL que não compreendo quem é que possa, estética e saudavelmente, usar; acresce, ainda, o facto de não estarem na língua de Camões (será que as peças foram somente feitas para os civilizados «bretões» usar e que tudo o resto deveria andar nu?!) e com medidas que pouco ou em nada batem certo... –, para além do mais: ninguém, ou quase ninguém, fazer uso daquilo que lá é dito – sim, aprendemos com as nossas mães que esta e esta peça, devem ser lavadas conjuntamente; aquela e aqueloutra, separadamente; o mesmo se aplica para o engomar: acho que em vez das etiquetas, deveriam ser as mães que deveriam estar colocadas nas camisolas que compramos – com devido respeito – não acham? Seria bem mais prático e até na hora da compra, sempre lá dariam uma opinião. Comprei a camisola – que ainda não usei – e de um só golpe, com a tesoura, desfiz-me da etiqueta e até acho que a camisola cai-me ainda melhor.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Sinais de Lisboa – A miúda do metro

terça-feira, 28 de agosto de 2007
Sinais de Lisboa – Desilusão «como se»

segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Sinais de Lisboa – Insatisfação

sexta-feira, 24 de agosto de 2007
Memórias de Óbidos - Mosteiro da Batalha

Tanto louvor exterior de uma miséria interior, tanta opulência visível de uma pobreza invisível, tanta matéria com tão pouco espírito – nem o amor de Pedro e Inês, noutra geografia desenhada, atingiu tamanha façanha; nem as mortes nem a vitória de Aljubarrota adivinhavam tal destino petrificado, eternamente erguido, teso e reteso – a desafiar os céus –, deste Mosteiro. Ao menos, para quem o visita pode degustar-se com os Roma, os Sintos e os Calon (gypsies) – de berço indo-europeu – espalhados ao seu redor, a vender tudo o que corpo precisa e a alma anseia; regateie-se e com sorte é o Mosteiro que se hipoteca em troca de uma bijutaria – disseste que a fé é esta pose de andar em pé, erguido em humanidade, lembras-te?!, que ela é nómada… – que é de tal modo tão forasteira ao corpo que somente na lixeira encontra a sua moradia.
Talvez a Saudade seja o Mosteiro que nos falta, desenhada no Atlântico que nos banha e no Marão que nos envolve, no Alentejo que no inclina e no Algarve que no promove além deste aquém na raiz de ser português.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
Memórias de Óbidos - Cabo Carvoeiro

segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Memórias de Óbidos - Mosteiro de Alcobaça

terça-feira, 7 de agosto de 2007
Memórias de Jersey
Entalada no Canal ao sabor de um mar frio e de um vento gélido, garante de um beleza natural e artificial que enchem os olhos, é no horizonte que mato as saudades de ser ilhéu - não deste ilha, demasiado serena e burguesa, mas daqueloutra, rude, bruta, incivilizada. Mas a beleza nasce da sua utilidade, a natureza não lhe deu mais do que isso, o ser útil, uma espécie de pedaço de terra que vive vidas emprestadas, investidas por seres vindos de outras paragens e que sem ganharem raízes, vivem uma vida de espera, de dia de regresso, de expansão de emoções e de sensações onde a moral e a ética ficam paredes a dentro. Esta imagem comercial, elementar, tem a sua beleza de viver, de poder viver entre um ambiente multicultural, plural, egoísticamente, plural, onde a língua morre quando nasce, nos esgotos de uma linguagem que não se aprende, mas que se adquire em prol das necessidades primárias, das secundárias e de todas as outras que vão aparecendo. Mas esta ilha, berço do exílio de figura imponente, como Victor Hugo, não guarda uma cultura que lhe valha - morte antes de morrida, fria antes de esfriada - em cada canto vê-se o que não há ou somente o que há na beira do sexo, de horas perdidas, de sonhos sonhados, de bandeiras vencidas, de heróis mortos à beira e à praia mar. Não lhe devo nada, não me deu nada, tento tudo nela um pedaço de mim. E à luz daquele farol - que se diz o mais antigo e o primeiro que deu luz ao mar desta Europa - fica apenas o vento frio, o som das gaivotas, uma mulher bêbada que passeia um cão - talvez esperando qualquer coisa ou coisa alguma - ao sabor das críticas morais de quem passa, cuja felicidade se encontra no fundo de uma garrafa vazia. Há desejos de ser a garrafa, mas nunca a mulher, rasgada, consumida, desejada outrora pelos impulsos masculinos e femininos de foder, loucamente, um bocado de carne, dando eternidade na terra a um sonho porvir. Jersey... uma palavra em tantas bocas e línguas e culturas e costumes e morais e tudo diferente... esta Europa que nos escada na sua multiformidade, esquece-se da unidade que a sustenta, que tudo subsume e tudo produz diferentemente. A redução à unidade, donde nunca saímos, é onde teremos descanço, àquele átomo indiferenciadamente diferente, jamais divisível, é onde meu olhar descansou, sob o horizonte do mar de Jersey.quinta-feira, 19 de julho de 2007
pequena loucura
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Se...

esticando-me em todo o comprimento. Se eu morto fosse haveria som, voz, sorriso, banquete, escuridão, espaço, entrega, descanso e distensão.
Upa, upa… que já falta pouco…
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Tu Tens um Medo
Acabar.Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.
Cecília Meireles
terça-feira, 3 de julho de 2007
SuSpEnSo
quinta-feira, 21 de junho de 2007
quarta-feira, 20 de junho de 2007
Voo
Uma praia cheia de pedras
Ondas que não me chamam
Mas são eu!
Águas mortas desta vida - sede -,
Searas do deserto
Brechas sem remendo
Alma sem janela
Corpo entupido de intuições
Confusões
Cruzamentos no meu meio
Num pasto sem ervas
Sem horizonte ou sol...
E só pedimos
Um nada de tudo;
Nem isso!
Isso nem está
para ser em nós,
neste mim/si.
Aqui sentado
Sem Sul e Norte
Tendo Tudo
De Nadas.
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Apoquentação

Nunca descansei à sombra da azinheira,
Nunca dormi uma noite por inteiro,
Nunca tive paz nem descanso...
cheguei sempre depois da vinha vindimada;
depois da seara colhida e
só o joio ou o restolho me mataram a fome e o frio!
fui sempre ao sol do meio dia;
sem água e sem sal, descalço,
deserto a fora com calos e bordão na mão!
advim sempre em matinas sem acordar;
de olhos cansados, raiados de sangue e de lucidez,
sentado nos penedos naturais que a vista me alcançou;
ergui e fui sempre a controvérsia
baluarte dos miseráveis na terra dos ricos
uma bandeira rasgada,
um xaile da minha altura.
Sempre apoquentado, sempre
teço a anfibologia:
tendo e sendo muitos,
não tenho e não sou nenhum
– existo vivendo diferentemente o interesse – apoquentação.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
sonho que é de realidade
Ali onde houve sonho e houve realidade, aí mesmo, soube da morte, do morrer e do estar morto;
soube e não disse, como se fosse um segredo do qual se tem pudor, do qual se guarda timidez, uma certa tibieza pela sua existência, do qual há ruborização somente em pensar, em formar a imagem nítida ou obscura no pensamento;
soube e vivi, revivi e invivi tudo o que pode nos meus desejos, anseios, medos, frustrações, limitações, inibições, experiências, práticas e traquejos, e o que ficou de tanto senão uma vida feita de nadas;
soube e fiquei na ausência presente;
soube e fui na presença ausência insistente;
soube e soube-me – morte, morrer e estar morto – soube-me e soube.
fala-me de sonho, do embalo que tenho nos teus braços quando teus beijos me envolvem na loucura da sensatez; fala-me de sonho, da paz que meu corpo deu ao teu onde o limite transposto foi barreira e ponte; fala-me de sonho, do cuidar, do zelar, do velar e do trato;
há um sonho que é de realidade: morte é embalo, morrer é paz, estar morte é cuidar.
sábado, 9 de junho de 2007
sexta-feira, 8 de junho de 2007
Olhar pesado
A cabeça sustenta o mundo, compacto, denso, quente, azul.
O corpo são léguas de lâminas apontadas para dentro, afiadas, cortantes, pontiagudas, verdes.
Violado, corrompido, forçado, invadido: o mar.
Sangue, desventrado ao amanhecer da vida, sangue.
E veio a noite e que noite esta...
De lés a lés o corpo era uma chama dolorida que vomitava calor,
Um vulcão faminto, furioso, que cuspe, a cima e abaixo da minha altura, o que sou por detrás do que pareço.
Agónicas enxurradas, ora em fumo – os pulmões – ora em lava – a garganta – e o meu corpo, como caravela – ora expondo a pompa aos céus, ora sendo embalado na goelas de Posídon – ia vendo as esperanças paradas!
Mas não há agonia que salve a vida que somos no sangue que derramamos!... – ah, Prometeu, porquê?! –
Insatisfeito, insaciado, descontente, irado...
Cospe do fundo, do negro, do vazio, do nada, da solidão a preto e branco,
O Cerberus
Demónio do poço,
Monstruoso cão de divisíveis cabeças
E cobras ao redor do pescoço.
Esperto, astuto, lâminamente astuto,
Infestou, quimericamente, o meu pensamento, a minha alma, o meu avesso – dura investida! –...
Alastrou, na Atlântida, do meu corpo, dos meus ossos, da minha carne, dos meus olhos – grito, grito, grito!... e quando mais grito, mais aflito! –...
Dominou, hora a hora, onde o tempo foi ausente e a noite sem fim;
Dominou, hora a hora, onde a eternidade amamentou lágrimas secas, estéreis;
Dominou, hora a hora, onde o corpo alucinou-se outramente inventado;
Dominou, hora a hora, onde a alma, liberta, viu-se acorrentada;
Dominou, hora a hora, entre a loucura sustentada e o vómito produzido.
Amanheceu...
Nem Posídon, nem Cerberus, nem Quimera, nem Atlântida... – amanheceu –
Esventrado, torturado, prazenteiramente, trucidado: eu,
apenas eu, no silêncio de quatro paredes brancas – minhas mudas testemunhas –,
apenas eu, na imensidão da geografia – meu Sul –,
apenas eu...
sim!
eu e tive medo de mim,
porque ainda vivo e sinal de repetição!
terça-feira, 5 de junho de 2007
Pausa

Ontem e amanhã. Uma distância de vazios.
Tudo e nada. Uma vida de miniatura.
Eu e eu. Um escândalo a olhos vistos.
Pausa.
Silêncio. Uma voz que grita do fundo do mar.
Lentidão. Uma vida de tormentos.
Vagar. Um cantar sem fim.
Parada. Uma tarde, o mar e o pôr-do-sol.
Paragem. O metro cheio de gente.
Interrupção. A vida que começa – parto.
Intervalo. Um beijo esquecido.
Suspensão. A vida que me vai morrendo.
Pausa.
Antes e depois. Um vácuo preenchido pelo agora.
Ontem e amanhã. Uma distância de vazios.
Tudo e nada. Uma vida de miniaturas.
Eu e eu. Um escândalo a olhos vistos.
domingo, 3 de junho de 2007
vEm devagar

sorrateiramente,
como quem não quer nada,
vem...
– aconchega-me nos teus braços,
lascas de lâminas de ternura –
e não digas por que é que vens,
vem somente,
sem razão,
sem liberdade,
sem escolha,
sem desejo...
– e dilacera-me o ventre
com o punhal da tua existência,
trucida a minha voz,
teu silêncio,
na tua ausência sentida –
vem impregnado de lucidez,
cega-me os olhos
e vazar-me a pupila do olhar
– seca-me a seiva da vida,
de um só golpe,
lento, demorado, pachorrento,
seca-me...
e não olhes para trás,
não!
Não olhes,
não vejas,
não queiras,
não! –
vem, este naco de carne,
putrefacto,
podre,
nauseabundo,
e regurgita o que podia ter sido
nado incriado.
– vem comer a morte que te sacia,
vem... –
ReviRavoLta
Umailusãoeumapaixão,p’raquê?
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Luz hibernada
Levanta-te desse teu fardo
Rasga, no chão – o chão onde amaste – o tear que te amedronta;
Enfrenta o destino – as ruas de Lisboa, as escadas... –
Tece, outramente, o futuro e os desamores
Não te prendas ao horizonte, sê eternidade!
Vislumbra na madrugada – onde fomos correndo à chuva, como me lembro: o sol adormecido atrás das nuvens cinzentas, deixavam as gotas da chuva cair como lágrimas, como lágrimas... – a última estrela, a luz que hiberna...
Sentir muito, profunda, longa e calorosamente... sentir
– onde estão os beijos que te dei? – ó eterna Penélope,
Cria os teus movimentos, faz do teu suor – que queima no gesto, como sempre me dizias – a loucura na ponta do desejo;
És Penélope e Ulisses:
És a proximidade que provoca ainda mais saudade – que aumenta a dimensão da entrega do desejo, disse-to ao ouvido – um paradoxo de lonjura
Nos movimentos do tear.
«Vou explorar-te toda com a minha boca, levar-te à loucura», disseste
Ó Ulisses, mas a tua voz é uma luz que hiberna, à fome...
Eu que te disse – lembro bem desse dia – recebo-te
Em minhas mãos
E no abuso haverá loucura e desejo e sons de prazer e calor e vontade e beijos e saudade na proximidade.
Mas houve nada.
Houve ninguém na estrada
Houve ausência na espera
Houve degraus no descanso
Houve sol, quando deveria ter havido chuva!
Foi deserto, foi gelo, foi um rio que não sabia correr...
– a ilusão e a paixão, disseste-me entre um sorriso embasbacado do prazer tido, é como um padre que ama uma menina – E o dia rompeu, a aurora chegou para ti, com a partida de Ulisses, ó Penélope!
Redesenha o teu corpo
Lava a tua cara
Enxuga as tuas lágrimas
E com o cales nas tuas mãos
Colhe a luz que hiberna jamais.
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Firmamento
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Sol de Inverno
Sabe Deus que eu quis
Contigo ser feliz
Viver ao sol do teu olhar,
Mais terno.
Morto o teu desejo
Vivo o meu desejo
Primavera em flor
Ao sol de Inverno.
Sonhos que sonhei
Onde estão
Horas que vivi
Quem as tem
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém
Beijos que te dei
Onde estão
A quem foste dar
O que é meu
Vale mais não ter coração
Do que ter e não ter, como eu.
Eu em troca de nada
Dei tudo na vida
Bandeira vencida
Rasgada no chão,
Sou a data esquecida
A coisa perdida
Que vai a leilão.
Sonhos que sonhei
Onde estão
Horas que vivi
Quem as tem
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém.
Vivo de saudades, amor
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de Inverno
Não tenho calor
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém.
Vivo de saudades, amor
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de Inverno
Não tenho calor.
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Ausência
Qualquer coisa

terça-feira, 22 de maio de 2007
Reflexão abusiva
Onde é que o começo foi prenúncio do fim?
Onde é que, afinal, o kairos deixou de ser, e deu lugar à fatalidade, ao irreversível, ao terrível «tem de ser»?
Esta manta de vivências, de experiências, de desejos e de inibições;
este bordado alinhavado à largura da existência;
este pavio que queima, apagando-se e acendendo-se continuamente;
de tudo isso ficará ao menos, na finalidade de tudo, uma baba como a do caracol que brilhe quando o sol nela descansar os seus raios?
Em cada momento da vida somos o vazio do que poderia ter sido cheio;
somos a imperfeição do que poderia ter sido perfeito;
somos os lábios onde deveria ter havido o beijo – e houve o Sul, sem mais nada;
somos a vida, quando é na morte que tudo se clarifica.
Damos passos, tomamos caminhos, seguimos desejos, apanhamos a chuva que cai das nuvens, enchemos o olhar com o sol da tarde, abundamos as narinas com o perfume da Primavera, besuntamos o corpo com as palavras de silêncio – e mesmo assim somos esse recipiente ora meio cheio ora meio vazio – e haverá diferença entre os momentos em que estamos meios cheios ou meios vazios?
Não continuamos a ser sempre o mesmo do mesmo na diferença dos dias – sendo a diferença os dias ou o mesmo?
Esta real ilusão que arrastamos, buscando nos momentos a vivência e a experiência;
a colher – pedintes! – a gota de orvalho que vai se formando, disformando e informando ao nosso olhar.
Somos este Medo que se espera na estrada do fim.
Somos o Terror do Medo sem fim.
Somos o sítio frágil do mundo que é Fim.
segunda-feira, 21 de maio de 2007
A leveza do Embondeiro

A vida emerge sempre de qualquer pequeno mistério que a lança acima das nuvens pela chuva que foi chamada a cair.
Na leveza ou na brandura existe sempre uma simplicidade de rosto, de sentimentos, de temores e de sensibilidade que nos prende e abre para outras lonjuras...
- tu bem o sabes -
Foi nossa alma que chorou ali, lembraste?
Foi, também, ali que ela cresceu, entrelaçada, nos braços do Sul...
- ainda sentes? -
Amanhece num piscar de olhos
e na sombra da árvore Embondeiro - onde fomos morrendo -
já nem o fresco nos arrefece...
Nem mesmo a folha simples - aquela folha, recordas-te? - que cai
ou o fruto que nos galhos - ai!, nós e o galhos... - amadurece,
nem mesmo isso foi
o que "Nós" na Alma
perdura e, no todo de mim,
é leveza.
Névoa

Torcida no tempo fugaz
Na neblina que não passa nem se desfaz
Há movimentos, há tristezas, há gente
Há criaturas que crescem e outras que desaparecem
Umas que são, outras que não são
E o silvado selvagem
Não sabendo de fronteiras ou limites de partilhas
Calcorreia terra acima e adentro
Apoderando-se do meu e do teu
Fragmentando o que a lei talhou!
Firmes, hirtos, grandes, pequenos
Verdes ou esverdeados
Secos ou maduros
Ali não há gente
Não há humanidade nem crueldade nem sentimento
Ali há silêncio
Que ninguém governa
Que ninguém extingue
Que ninguém conhece.
Terra de ninguém, terra de desgraçados
De mãos carcomidas e de pele talhada
De olhos fundos e de face endurecida
De inocência cruel e de maldade frágil.
Gritos, gemidos, sons ou vozes
Barulho ou sinfonia
Um momento de afazeres, de parires e de gozo
De loucura aceite
Na teimosia do tempo de gota a gota.
De norte ou de sul
De figurais cardeais do não
De horizonte agrilhoado
De realidade suspenso
De nada.
Fim, antes de início
Sentir decepado
De raízes e de altura
De calafrios e de visões vazios
De torturas e melancolia
De outras aventuras e de lugares
De gente
De animais
De plantas
De verdura e de natureza
Espontânea manifestação
Ou fenómeno contorcido
Água barrenta!
A névoa calcorreia
Transcorre o lés
Onde tudo faz sentido
Onde tudo tem o seu túmulo
Onde tudo recolhe a cinza de ser
Bom ou mau
Alto ou baixo
Grande ou pequeno
Gordo ou magro
Certeiro ou desacertadoNa aventura do abraço da névoa!
Cede

lentificada pelo tempo fustigado no pó das letras,
a imagem da memória de ti
recriada nos espaços que ocupo.
Penso que aqui não há nada
e é precisamente aí o lugar em que te encontro.
Julgo reconhecer todo o vazio que ocupas de mim e sei
- com a certeza de quem não crê –
que tu és o absoluto.
Pé ante pé
sigo os passos que deixaste no caminho
por onde eu não seguia, não seguia…
- eu sem seguir -
Silencio as dores no embate das pedras
feito terra
feita sangue
feita cinza.
E nada a restar
para além da imagem de ti,
agora no pó
já não nas letras.
Eu a escrever o que não soube dizer
e tudo a cair por dentro da terra
num gesto de quem não sabe segurar
num sopro de um vento que não sabe tocar.
Ontem a ser o hoje em que te deixei partir
e eu já não na espera,
talvez já não na espera,
mas na certeza de ter cessado o tempo inteiro de mim.
Devasto os lugares que ainda têm vida
no meu corpo
no corpo que estripaste na suavidade dos dedos frios
e remeto-me inteiro para o lugar em que termino.
Encontro-te na distância do meu reflexo.
Eu nada.
Reflexo da distância tua do encontro teu
- já não em mim.
Há um vazio imenso
no espaço que vai de mim até ao lugar onde cessaste.
Eu nos passos do teu caminho feito agonia
a procurar-me na poeira.
Tu a gritares o silêncio contido.
Teus gestos na lâmina e o meu sangue,
o meu sangue,
a ser a certeza da tua existência.
domingo, 20 de maio de 2007
Retorno
Ó Prometeu livre e condenado
Onde o castigo é redenção naquela tarde
Onde o animal te devora, onde me vou sendo fígado e castigo
E animal à mistura.
Mas de todos, quem é o mais castigado?
Falamos do Prometeu, ficamos de olhos postos naquela liberdade e naquele fogo de pensamento e o esquecimento é grande para a pobre águia que todos os dias, no final da tarde, ao pôr-do-sol, querendo ou não, tem que o comer, devorar, para depois, numa espécie de loucura, voltar a crescer e a ser comido... até onde vai o castigo que devora?
Em que tarde a perdição foi encontro e onde somos Prometeu e Águia conjuntamente?
Quão grande castigo é este que se comete para ser furtado à possibilidade de haver possibilidade. Este poço, este fundo sem fundo, esta queda na qual vamos sendo isso, não tem retorno, não tem fim, não tem um termo, apenas cair, sempre, até não haver mais queda: na realidade, não existe fundo, ou piso de segurança, ou qualquer coisa que nos valha, somente a queda, sempre a cair e a aprendizagem com esse cair...
Caio e continuo: eis o que sou – uma queda sem retorno.
ETROM
Encosto ao túmulo frio
O aquecido corpo da vida
No jazigo duro da morte
É onde arrefeço a moleza de viver.
Tumular pedra lisa de inscrição
De nome ou data
De um vestígio de vida
De uma vida de vestígios.
Jazigo podre, nauseabundo
Lugar apertado de fechado
De cheiros privado:
O que somos do que fica!
Dor de vida e da última gota
Engilhado de viver
De acertar o passo com a colheita,
Ceifado de olhos abertos.
Túmulo, jazigo: a ceifa
A paz de um campo lavrado
Onde a promessa se cumpre
De um destino acatado!
Estas é a hora, aqui como outrora, ora pois: que seja de uma vez, o lavrador e a ceifa, a estação que dá de si!
sábado, 19 de maio de 2007
Reflexo
sexta-feira, 18 de maio de 2007
Procura
Sobre a manhã

E os percursos que faço, desfazem-se
Esfarelo entre as mãos o destino
É no pó que me revejo, é na cinza que ganho asas.
Os caminhos que trilho
São as desgraças ganhas em prémio
São os dias vazios e as horas sem tempo
Os caminhos que trilho
Para onde vou?
Chove na minha vida, como no inverno que me pariu
Chove na minha vida, as lágrimas que derramo no silencia,
Nos sorriso que dou, na mão que estendo,
No olhar que lanço, no toque que quero dar e é-me vedado...
Apetece chorar sobre a manhã
No canto da minha vida, na relva verde em que me deito
Apetece ser a manhã e jamais voltar,
Morrer ao início da tarde...
Mais do que a solidão é o vazio que consome, que esfarela na sua mó, a solidez do sendo; mais que a solidão é o vazio que arrebata matinas sem acordar; penso que poderei engloba-lo todo, mas sendo ele tão grande, serei eu quem perecerá no fim, como tem que ser... e quando for cadáver, frio, deixarei ao mar a minha herança, porque só ele tem fundo para o vazio que carrego.
Espiral

deixando transparecer a beleza apodrecida dos anos,
de um tempo que se vive inversamente para dentro,
sem colher da calçada o frio terno que ela emana.
… será que o destino, esse fogo cinza,
essa imensa altura que paira seca
se deixa apaziguar, algum momento,
apaziguar?!
… e eis que no passado das vidas enroladas,
uma foz falou demais em momento inoportuno
fazendo murchar aquilo que poderia ter sido
e sido grande, mas nem pequeno em forma foi!
… trágico, tremendo e fascinante:
o horizonte, que há na divisão dos céus,
é feito de chuva,
chuva?!
… e eis que o futuro, esse leque de gueixa,
incendeia a brasa já queimada
a madeira que se fundiu de arder.
quando o grande se tornou pequeno.
Expressão

Olhar fechado, frio
Tábuas de moradia, estranho
Cantares perdidos, momentos
Mãos coladas, dor
Pé juntos, caminho
Ar podre, pulmões
Nome, um destino.
O Sul mostra a sua face pelo direito
As searas cantam a brisa
As vindimas prenhes
Uivam com as matilhas e alcateias.
Há tanto de vida, de sangue, de herança
Tanto há.
A custo se vê o que não há
A custo se sente que não há
A custo se pede o que não há
A custo se toca o que não está.
Um assunto resolvido
Uma espiga e um moinho
Uma lápide que nunca teve mão.
Cheiros laminados, cozidos e esfregados
Odores de coisas que nunca senti
Um vazio que não tem nome
Que não tem figura
Que não tem sentimento
Que não tem paz.
Dou-te a minha paz, paz que não tenho
Arranco de mim um bocado de ti
Para tu seres aí melhor que foste aqui
Em mim o que nunca soube que eras em ti.
Dou-te aquilo que me falta
O que não tenho
O que nunca tive
O que em mim será sempre ausência
Aquele lugar de expressão
Por preencher, por encher
Por ser.
Arranco de mim um perdão que não tenho
Porque não há culpa figurada
Porque não há sentimento sentido
Porque não há desejo e atracção.
Parado.
Lavro em mim essa realidade
Essa herança que te deixo levar
A enterrar
Abre os olhos ao menos uma vez
Olha em ti o que de mim há
Cheira e saboreia o que ficou indo
Canta, sem voz, aquilo que ficou no silêncio
Obra, com as mãos, os pés de caminhadas
Por encetar.
Diz ao menos que sim
Que há tempo quando não houve
Que há hora quando era findou
Que há qualquer coisa onde há nada.
Dou-te a minha voz
A minha palavra
Aquilo que sou
Para seres depois.
Reticências
E a história resolveu-se
Escreveu-se sem pena, sem tinta
Foi tomando forma e lugar
Foi lançando nas palavras por dizer
Qualquer coisa como coisa qualquer.
Enunciação,
representação,
manifestação,
frase,
locução,
palavra,
aspecto,
fisionomia,
vivacidade,
animação,
expressão:
feneceu.
Foi na vida que a seara se talhou, nesse campo lavrado, nessa vindima executada: uma seara que acusa o Outono. A corda tanto esticou que viu o seu termo, a ponta tão final que foi horizonte do princípio, daquele início onde o parir, gemido e sangrento, relatou a miséria de começar a viver nas entranhas para viver sem elas. Não há história, nem distância, não há realidade ou memória, não existe um traço que possa ficar, onde ficou, para poder contar, relatando, ao sol a espiga de trigo amadurecida, mais pela terra, do que pelo sol. Faço um convite à expressão, a esse movimento direccionado, a essa realidade visível, para poder ver aquilo que a memória não recorda como lugarejo, faço o convite.
23 de Agosto de 2006
Dia da Santa Rosa de Lima










