quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Bocados de um Diário – Em viagem ] Zurique [


De novo em viagem! Vou e venho, e o que levo trago. Como se preenche o imenso? Onde se se encontra o fundo do abismo? Como se convoca a voz do silêncio? No limiar da vida perdi-me do caminho, no meio da floresta, junto à escuridão de trilhos. Há somente a sensação cada vez mais vasta do largo, do amplo e do sem-fim. Locais e momentos, gentes e línguas, culturas e países. Assusta-me a vontade, cada vez mais presente e impertinente, de por um fim a tudo isto. De dizer basta!, e decepar pela raiz a seiva da vida. Se eu fosse a possibilidade pensada e querida, até mesmo acreditada, de deixar de ser, será que em todo este vasto imenso sem-fim haveria um eco da minha ausência ou o sinal da minha presença?

Memórias de Viagem – Em pleno voo de ida ] Zurique [


A que alturas sobe o homem! Sobre a Ibéria, um manto de nuvens brancas acinzentadas adornam as montanhas e servem de albergue aos adormecidos tojos. O isolamento vê-se melhor do alto. Gente aqui; gente além; de um lado e do outro enérgicas bandeiras de terra erguida, tesa, retesa a investir contra o céu. E a isto chamam céu. Não vejo Deus; não o sinto; não o cheiro; até o céu, na sua imensidão, é a ausência de Deus. Nem ele coube nesse lugar tão largo, grande, astronomicamente imenso. Até onde as raízes madeirenses podem ser esticadas?

terça-feira, 27 de novembro de 2007

] § [

– ouço a tua voz que vem de longe, da tua voz que mora no outrora, noutro tempo, talvez numa outra vida... mas foi nesta, não haja ilusões sobre isso, que rasgaste a minha carne, fizeste de mim o teu sangue derramado, que, por fim, insaciável, deixaste-me moribundo com a dimensão da tua partida, sem palavras, sem despedida, sem uma razão; talvez porque não as houvesse ou se as havia, não havia palavras que as verbalizassem, e o silêncio, o indizível, o calado foi o lanço que rematou o horizonte fechado do teu rosto, ao longe... –

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Caderno de Apontamento – Ilha Terceira: Angra do Heroísmo

Dirijo-me à janela do meu quarto de Hotel, abro-a e é o mar que me visita – não o mar feroz e agreste, indomável e violento da minha terra, onde me deixaste a morrer, recordo-me como se fosse amanhã – e o céu cinzento sobre o mar azul, o banho de espuma na costa e na areia negra são os degraus de uma alma que se sabe descansar.

As ruas estreitas e largas, com nomes conhecidos e outros desconhecidos, estórias e histórias que elas contam; o som das vozes e do comércio, a lota do peixe fresco e dos carros na calçada, são imagens de adormecer, sob uma chuva ténue que cai sobre o meu pesado rosto de viver.

Um jardim cantoneiro à cidade, com árvores e plantas e tantas coisas com nome: sentei-me junto a uma magnólia roxa. Procurei descansar ao sabor dos cheiros e do vento que soprava entre o descanso da chuva. Tenho a terra das ilhas entranhada na minha alma. Sou um ilhéu com o tamanho do mundo. Não tenho pontas nem oceanos, não sou de penínsulas nem de continentes: sou uma ilha e o universo é o mar que me banha – foram as tuas palavras, junto ao calhau, quando a morte te me visitou, na presença minha, a tua ausência foi pó das estrelas, onde fiquei, foi onde a tua ausência fez-se notar; rasgaste-me de lágrimas, lancetaste a minha alma, fizeste meu sangue jorrar como uma cascata a teus pés; onde tudo foi morrendo, foi meu corpo que se dissipou; onde tudo foi o que quiseste, fui eu que fui imensidão: ao teu colo, o meu sono de descanso foi planície; regressa de novo, novamente, onde não pode jamais haver retorno; onde o tempo passa, tudo é precipícios abissais de quedas sem fim.

Angra do Heroísmo: o atlântico como casa e a terra como refúgio. Ali vi o mar e a terra, vi o verde e o azul. Ali senti de novo a ilha. Ali fui ver a seara da morte: e estava viçosa!

domingo, 18 de novembro de 2007

Caderno de Apontamentos – Ilha Terceira: Praia da Vitória

Como é largo e imenso este Portugal!

Com os pés na terra – as largas planícies e verdejantes, num dia solarengo, da Terceira – e com os olhos enraizados no mar, a Praia da Vitória até faz apetecer cá viver. E essa água, de ventre maternal, embala a terra suavemente, na terra do Nemésio, sem o mau tempo no canal: uma paz podre que não durou muito. Olho em redor e tudo é imenso, grande, largo e apetece deixar a existência descansar e escancarar-se ali. Tudo tão desenhado, tão perfeito que nem parece que estamos na terra da imperfeição. Ah... e os sons, os sons do Portugal na boca de quem vive, falando a língua de Camões. Se eu não fosse madeirense, teria gosto de ser parido nesta baía, num dia solarengo, de mar calmo e azul, de olhos postos no verde telúrico. Aqui não há melancolia, nem tristeza, nem depressões, apenas uma alma lusitana que floresce bravamente no meio do Atlântico – sim, no meio de tanta água, de tanto isolamento e de tanta distância, a qual se canta, em cada canto, no som do vento.

Fecho os olhos, deixo-me ser no som e no silêncio do vento, não mais além nem aquém, somente o sangue lusitano, a carne atlântica e o esqueleto europeu.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Caderno de Apontamentos - Bruxelles au Metro

A noite mal dormida. Uma cama dura. Diferente. Impessoal. Mal amanheceu – mas aqui o amanhecer e o anoitecer confundem-se com o negro, com a noite, com a imensidão da planura ... – já estavam meus passos nos passeios escuros de Bruxelas. A caminho.

Apanho o metro em Annessens: direcção à Gare du Nord; saio em Rogier, apanho outro metro em direcção a Clémenceau e saio na estação Madou. Estações sujas. Frias. Velhas. Gente. Multidões. Um labirinto de linha férreas debaixo da terra – zummmm.... zzzzuummmm... plimm ppplllliiiiiiiimmmm – e um papel na mão para não me perder. Há um sentimento de solidão quando se anda de metro; de solidão e de amargura. As linhas férreas parecem uma prisão de destinos, somente aqueles e mais nenhuns; não há opção senão as predefinidas; as saídas de metro mais parecem dilemas existenciais: onde irão dar realmente?! Um caminho de subterrâneos que ora sobem, ora descem, onde se sentem odores animais e naturais, a café e a bolos – não, nada a ver com Belém... – e caras sem expressão, sem tristeza nem alegria, apenas caras.

Saio em Madou. Olho o edifício Madou, na Place Madou – quem diabo foi Madou, se foi pessoa? – que imponência de vidro se ergue aos céus – sinto frio, está frio, sentes frio, eu sinto e está vento, um ventinho inconfortável –; movimento-me, espero junto à passadeira, dirijo-me para este palácio de cristal e preparo-me para o apertado cerco de segurança – aliás, não deveria ser a existência a ser objecto de segurança? Por que é que são os artefactos somente os únicos considerados possíveis armas de ataque, armas brancas ou massivas? O segurança não quer saber disso, não faz parte; bom, que entre tudo e que fique o material cá fora – e dou o meu nome e a minha identificação completa, verificam no computador, mandam-me entrar por uma porta, que leva a outra e a outra de seguida e virando à esquerda, apanho o elevador, quando dou por mim, estou no nono piso.

E tudo começa: God morning! How are?! Welcome, I’m pleased to see you again in Bruxelles! How is the weather in Portugal?. Bom, apetece-me voltar para o Metro...

sábado, 10 de novembro de 2007

Caderno de Apontamentos – Bruxelas (Bélgica)

O aeroporto estava vazio e, por um momento, parecia que o mundo inteiro cabia ali, naquela imensidão em altura e largura. Bruxelas, 01h00m. Caminho sem pressas entre escadas que sobem e que descem para colher a bagagem. E quando a colho, puxo um peso existencial – parece que também somos o que levamos, tantas vezes me disseste, num olhar, num sorriso que fazia transparecer o tempo na tua face e que a face do tempo te me levou – até à porta do aeroporto e aproveito para fumar um cigarro, após várias horas de salubre avião e aeroporto, sem nicotina no sangue. Táxis parados. Negros. Parados. Gente. Diferente. Fisionomias. Países. Culturas. A existência. Tiro um cigarro, acendo-o e a primeira bafada tanto sabe bem como arde infinitamente, inflamando a alma. Táxis negros. Escuros. Lindos. Trajectos e outras direcções – a vida que se expande em ser vista, por tanto lado e de tanto lado.
[Estou sentado num café. À minha frente tenho um canteiro com uma árvore verde plantada. Uma árvore desenhada ao cuidado destas gentes do Norte. E o natural, livre, bruto e espontâneo não cresce senão à socapa. Não admira a ideia de Deus ex machina não tenha sido portuguesa. A nossa desorganização é o que de mais próximo e natural se tem com a natureza. Em Bruxelas tenho sempre o desejo de me tornar num animal sanguinário, uma espécie de predador das savanas africanas, sem fronteiras, sem moralidade, somente animal. Mas a minha animalidade afrouxa-se perante o que é a expressão bestial – de besta ou de magnifico... – desta gente que também é portuguesa, falante do francês, tal como os portugueses são belgas!].
Entro num táxi: Bon nuit, monsieur ! Bon nuit ! e após uma troca de palavras, lá estou nas estradas bruxelenses. Chove. Tempo magnífico. Estradas largas. Frio. Chove. A única coisa estranha é o taxista: nunca vi tantos traços contínuos pisados e transpostos, mas afinal o homem tem alguma razão, eles foram feitos para isso mesmo: serem violados. Cheguei ao Hotel. Cansado.

sábado, 6 de outubro de 2007

"Lágrimas correndo Mundo"

Sempre no encalço do horizonte e inveterado no telúrico que me viu parido. Vá para onde lá, veja o que vir, faça ou desfaça, tudo parece nunca ter saído donde vim: uma espécie de atracção invisível, onde o sangue e a terra foram um. Olho-te na lonjura e sou um dos teus calhaus: duro, vulcânico e salgado. E é nas tuas courelas, por vindimar, que encontro o meu pousio. Nas cepas degoladas é o sonho parido que fica a voar, no vento e na brisa. Ah... o mar e a serra enamorados, traídos e amantes. Uma força e fraqueza de braços dados. Gente. Morte. Vida.

Uma sombra persegue-me.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Prenhe de morte – De artis et medus morior [ou o ser medo de morrer]

Acerca da arte e do medo de morrer ou o ser medo de morrer.

Morrer é uma arte, é uma façanha, é a mais elevada criatividade do ser humano: nada a supera em intensidade, nada lhe falta em precariedade - arte a que nada lhe é estranho. Mas quem a compreende como artimanha, ardilosa e fraudulenta, vive no medo de morrer, morrendo amedrontado.

O medo é o obstáculo à autenticidade da arte, do que se apresenta como um acto de criatividade, de unicidade, de singularidade de quem morre. Medo é uma reacção imediata e explosiva a uma ruptura, não a compreensão da beleza e do inventivo dessa ruptura, isto é, da arte.

O morrer como arte é uma expressão kairológica de que este e este ou aquele e aqueloutro momento são os momentos oportunos, certeiros e adequados para a realização do acto; momentos em que o tempo de ser e de agir coincidem, em que são transcendentais um para o outro.

Veja-se que a própria língua ajuda. Diz-se: «ter medo de morrer» e nunca «ser medo de morrer». O medo parece recair sobre uma posse, sobre qualquer coisa de «ter» - que escapa sempre e nunca se tem, jamais -, de «ter» que põe e dispõe em cada momento, mas que a nenhum se transpõe.

O «ser medo de morrer» é uma arte que não está ao alcance do primeiro que chega e difere da «arte de morrer». O «ser medo de morrer» é indizível porque o seu sentido está além deste Mundo, transcende-o valorativamente e não é caso de preferência. Essa dimensão de ser é a de ser fronteira – de um lado isto, do outro aquilo, de nenhum lado ser, ser absoluta e diferentemente – fronteira.

sábado, 29 de setembro de 2007

Prenhe de morte – um equívoco

A morte é um horizonte apetecível e de preferência para relacionar com a esperança.

Nada mais absurdo! Não existe relação entre uma coisa e outra: a morte diz respeito a um acto autêntico e a esperança a acções efectivas. Querer relacionar uma coisa com a outra é como querer ver uma relação causal entre a existência do copo e a existência de líquidos.

A impossibilidade de relacionar a esperança com a morte não é uma posição angustiante, nem deve sê-lo, mas tão-somente o reconhecimento que esse acto autêntico dispõe-se autenticamente enquanto absoluto. Falar de vestígios deste acto autêntico nas acções efectivas é outra coisa bem diferente: o absoluto da morte é tão puramente autêntico (note-se que mais universal que a própria razão, senão mesmo O universal por excelência) que é o fundamento – no sentido de Ab-Grund, o sem fundo, o abissal... – das acções efectivas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Prenhe de morte

Quem nos emprenhou de morte? Esta gravidez que se alonga pelo tempo, da cavidade uterina ao jazigo, inunda todos os gestos feitos, a fazer e por fazer. Não existe momento que não seja a expressão do morrer e do estar morto. E somos nos momentos, nas suas junções, nas suas síncopes e nos seus acontecimentos.

A morte é a criatividade da vida, na sua fecundidade, na sua ocorrência e na sua esterilidade. A morte é, igualmente, a corrupção da vida, no seu vazio, na sua possibilidade, na sua realidade.

Chegado o momento do parir, somos parturientes e paridos. E de um só rasgo, ensanguentados e cansados, das dores abençoadas de parir, lançamos na vida o suspiro de tarefa cumprida: o morto vem à luz do dia.

Quando for morto, o sentido emergirá no vazio, no nada, em algo.
Quando for morto serei o meu final.
Quando for morto.

[Somos a morte dentro de nós e somos prenhes de morte!]

Sempre.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

One day... One room...


Among all possibilities, the daily life it’s bond to a real possibility. The horizon of action is this precisely moment and there is no odder. If we postulate the possibility of consequences of our actions, it is so possible to postulate the necessity of eternity: or the actions do not have consequences beyond the moment, or they have and the possibility of eternity is necessary. The heart of the reality is this moment; and is this moment that eternized can be, nothing more, and nothing less. Life is a chamber of fire where the ice is burning forever more. One day… one room… I and nothing more: the others do not exist as I exist in that day and in that room. The possibility of me is the nothingness off others and vice-versa: forever and ever incommunicableness.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

[sem título]

A vida... tanta busca por sentido, por objectivos, por realização... quando tudo se dá e acontece nos mais pequenos e insignificantes momentos, nas migalhas, na poeira, nos grãos que vão caindo do cesto que vem da vinha vindimada.

E o homem julga-se pelas suas acções e não pelas suas memórias. Mas não há memórias sem as acções que as sustentam – ou pelo menos pensamos que seja assim... e é no meio da vida que perdemos o fio à meada: longe está o início e o fim é incerto, uma caravela que no alto mar já não vê terra e o horizonte é sempre agora e ainda não...

Onde e quando é que tudo foi morrendo?

sábado, 15 de setembro de 2007

Intrigas - a sombra e o seu objecto


As escadas não são escadas; os degraus não são degraus; as pedras da calçada não são pedras da calçada; o corrimão não é corrimão; as árvores não são árvores, nem os galhos, galhos das mesmas árvores; nem as folhas a folhagem que as veste; os prédios com portas e janelas não são prédios com portas e janelas; os escritos nas paredes não são escritos nas paredes e nem as paredes são paredes; o ar que se respira e os barulhos e os cheiros não são nem ar, nem respiração, nem barulhos, nem cheiros; as conversas, as palavras, as vírgulas estranguladas nas conversas e os risos e o silêncio, não são conversas, não são palavras, não são vírgulas estranguladas, nem conversas, nem risos, nem o silêncio são; e a gente que anda, que corre, que para e que olha, não são gente, não andam, não correm, não param, nem olham, porque não são; o cheiro a café, a bica molhada nos lábios, o gosto queimado de uma italiana, o borbulhar de um cerveja numa mesa pálida, com a tolha suja, com vestígios do antes, não há cheiro a café, nem a bica molhada nos lábios, nem gosto queimado da italiana, porque não é, nem o borbulhar da frio cerveja – porque nem frio nem quente, nem qualquer sensação de frio ou de quente, nem morno ou coisa semelhante – tudo não é, tudo desfragmentado, tudo diluído, tudo feito não, feito estranho, feito distensão.

Suspensão na dianteira de mim. A sombra e o seu objecto tornam-se um.

P.S. – Dizem as más-línguas da minha aldeia que no seio de uma família mui nobre, reunidos à mesa, na hora da ceia - entre as colheradas de sopa –, levantou-se o filho mais novo e, de um só trago, disse: «Sou gay!», ao que a família respondeu: «Sirva-se do segundo prato! O seu mal é fome...»: a sombra e o seu objecto tornam-se um.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Intrigas – Sobre o acto de dizer


O que dizemos é uma tentação. E esta tentação rotineira, quase mecânica, julga poder, no acto, dizer tudo o que pode ser dito. Nem tudo pode ser dito, nem nada pode ser omitido, ora, alguma coisa é da ordem do verbalizável. E é esta «alguma coisa» que nos trama a todos.

De alguns anos a esta parte tenho defendido – contra algumas posições irredutíveis odeomainas – que há nessa «qualquer coisa» de verbalizável um tanto de incomunicabilidade. O que é da ordem do incomunicável vem à luz do dia acompanhado do verbo «ser» e o que é verbalizável com o verbo «agir». O busílis da questão encontra-se na impossibilidade de separar os dois verbos; de não poderem acontecer em tempos e espaços diferentes. Se assim é, parece-me, que o acto de dizer é sempre um acto kairológico em que o tempo de ser e a acção de acontecer congregam-se de tal modo que são autenticamente, para além da sua efectividade. Parece-me, ainda, que essa maravilha só acontece porque a razão é criativa e porque o tempo não é estático. Mas isto não elide o problema odeomiana: tudo é verbalizável! Aproveito, por isso, para questionar: o que seremos quando formos?

Se o dizer é uma tentação, ser é um acto erótico! A pessoa individual – continuamente em extinção e extintamente a continuar – é a exauração de ser erótica e tal como o erotismo carece de qualquer coisa, a pessoa extingue-se na consumação. Essa característica erótica do ser da pessoa é o que atrai, do passado, o «sido» e, do futuro, o «será»: ser eroticamente é ser horizonte, é ser o centro, duplamente potencial, do que no presente é o «sendo».

Ora, a conclusão é consequente: o acto de dizer é uma tentação erótica. É a tentativa de exprimir sensualmente o que é racional (no sentido da razão criativa que anteriormente falamos). E tal como o erotismo é um acto temporal distensivo, assim também o dizer é uma distensão no tempo. São precisos vários momentos, momentos distintos até, para que o próprio dizer seja efectivamente dito. Aqui sim há a comunicabilidade mais do que a verbalização; há mais a realização do ser, do que do agir. E sou tentadoramente erótico no «outro». E este «outro» concretiza-se na pluralidade, na diferença de todos os próximos que passam por nós, que nos atravessam, que nos rasgam na carne e que acalentam a nossa alma – que vem do futuro e nos abrem novas perspectivas ou do passado e curam as nossas feridas do presente. Parece-me que este modo de dizer e de ser edifica, sustentavelmente, a possibilidade, através dos «outros», da pessoa. Por isso, tudo o que «te-vos» digo é eroticamente tentador.


P.S. – Este texto não é ingénuo, mas, de igual modo, também não é completamente consciente.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – Etiquetas


Há tempos obriguei-me a ir às compras; a aproveitar os saldos – nem devíamos ser tratados por clientes nas lojas, mas por saldadores: «ó senhor(a) saldador(a) faça o favor de estar à vontade…» – e foi impressionante que não havia loja, naquele centro comercial, que não anunciasse os seus descontos de 50% para cima e para baixo – algumas, talvez por olho no negócio, até colocam as coisas nos 70%: razão: liquidação total! pois, pois… uma razão para dizer que vão mandar os empregados para o desemprego, mas o facto é que, contentes, vamos imediatamente ajudar à festa – com todo o tipo de roupas de Verão.

Mas se há coisa na qual sou esquisito é na compra de roupa: nunca tiveram a sensação que visitam todas as «capelinhas» e não encontram nada?! Epá, é cá uma frustração – para mim é cansativo, detesto mesmo – e ainda há mais: experimenta-se roupa, de tudo um pouco e ao gosto de cada um; e a primeira ideia que nos vem à cabeça é: «mas que diabo! Quem foi a criatura inteligente que desenhou ou concebeu esta roupa?» ou ainda «não existe nenhuma peça que me fique bem!?»: de um lado, as melhores peças já voaram pelos saldodependentes – ou por aqueles que tiveram um tiro de sorte – por outro, partimos sempre do princípio que o nosso corpo tem uma tal forma que não há roupa que lhe fique bem – já pensaram como existem pessoas em quem qualquer peça de roupa fica bem!? Acho isto irritante e deveria ser inconstitucional – hoje em dia tudo o que não se aplica a todos ou favorece uns e não todos é inconstitucional, parece-me politicamente correcto – ! Por mim, encontrar qualquer coisa que me satisfaça nesses dois aspectos é cá um bico d’obra! – enfim, esses seres devem ter nascido de cu para a lua.

Pronto, mas lá consegui comprar uma camisola às riscas – pretas e castanhas – que ainda não usei junto ao meu grupo de amigos, talvez por ser demasiado ousada – e eles dirão, espantados, «quem, tu?!, foste tu que escolheste isso?! Não parece nada teu!», mas lá depois acrescentam «fica-te muito bem!» e eu, claro está, fico com o ego preenchido de que ter andado horas à procura, não foi em vão! – mas podem ter a certeza que vou usar. Uma das coisas que me incomoda solenemente nas camisolas que compro – e vejam lá que não compreendo a razão de ser disso – é a etiqueta que trazem; agora até trazem às duas e às três, todas juntas e enormes, quilométricas! Fazem-me cá uma comichão junto à pele que nem imaginam: quem é que foi a criatura, de deus ou do diabo, que coloca lá isso, com indicações que ninguém percebe e quando percebe, regra geral, nunca batem certo: ou falha o país onde foram feitas (será isso importante: se estiver com um bom preço, tenho as minhas dúvidas…); ou a que temperatura devem ser lavadas ou engomadas (regra geral: é tudo lá p’a dentro e fé em deus!); e já nem falo do tamanho: existem S que são M e M que são L; e XS e XXL que não compreendo quem é que possa, estética e saudavelmente, usar; acresce, ainda, o facto de não estarem na língua de Camões (será que as peças foram somente feitas para os civilizados «bretões» usar e que tudo o resto deveria andar nu?!) e com medidas que pouco ou em nada batem certo... –, para além do mais: ninguém, ou quase ninguém, fazer uso daquilo que lá é dito – sim, aprendemos com as nossas mães que esta e esta peça, devem ser lavadas conjuntamente; aquela e aqueloutra, separadamente; o mesmo se aplica para o engomar: acho que em vez das etiquetas, deveriam ser as mães que deveriam estar colocadas nas camisolas que compramos – com devido respeito – não acham? Seria bem mais prático e até na hora da compra, sempre lá dariam uma opinião. Comprei a camisola – que ainda não usei – e de um só golpe, com a tesoura, desfiz-me da etiqueta e até acho que a camisola cai-me ainda melhor.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – A miúda do metro


É rotineira a minha viagem matinal, tão rotineira que a faço diluído nas paisagens que vão passando, nos sons emitidos, nos cheiros evaporados – nem todos… alguns são intratáveis, mesmo para o olfacto narigudo –; saio de casa, fecho a porta – duas voltas, não vá o diabo tecer… mas fico sempre a pensar que em caso de incêndio ou de natural catástrofe ou de humana rebeldia, é mais difícil entrar… e às vezes estas dúvidas acompanha-me mentalmente, mas só por alguns metros – entro no elevador, marco o zero ou o menos um, depende por onde me apetece sair – sim, existem muitas maneiras para sair de casa, outras tantas para entrar; agora permanecer em casa como moradia, isso são outros tantos quilómetros… – e caminho em direcção à paragem de autocarro – mas tenho carro, não o levo para o trabalho: já experimentaram conduzir em Lisboa pela manhã? E conseguem sobreviver até ao trabalho? E conseguem sobreviver todos os dias? Ao menos no autocarro da carris, na carreira do costume, temos as caras habituais que somente conhecemos por alguns minutos, ora resmungonas, ora tristonhas, muitas diluídas em paisagens que são memória, uma ou outra sorridente, e, com sorte, um(a) gajo(a) a comer-nos literal e visualmente, fazendo uso da discrição ou abusivamente! Bom, um bom início de dia – uma corrida ligeira na entrada do metro e lá se passa o cartão magnético – que legalmente no dá passagem para entrar – e, ordeiramente, aguarda-se a chegada da «lombriga» mecânica, que fecha ruidosamente as portas. Na estação do campo grande entrou uma miúda – digo miúda porque era pequena e tinha cara de garota – a conduzir uma melhor cega – o que aliás já vem sendo costume no metro da grande e civilizada, democraticamente, cidade de Lisboa, capital de Portugal, um país membro da União Europeia – por entre os obstáculos da existência: pessoas mal-humoradas, sacos e sacolas colocados no chão, gentes e gentinhas a lerem em papel os sonhos irrealizados, porque sonhados; aquela miúda, frágil e ágil, ultrapassava e evitava os obstáculos todos, vaporizando na realidade uma beleza singela e pura, em gestos de candura e de vida que se alongava para a mulher que não vê. Através daquela mão que, fortemente, segurava na ausência de visão, tudo ganhava os contornos mínimos da forma e da figura em olhos onde a visão era distância. Não lhe soube do nome, nem para onde ia; soube-a ali, naquele momento, rompendo a minha monotonia; com gestos e movimentos; com um olhar que não me olhou, nem soube de mim ali, ausente; e desapareceu no turbilhão das gentes, loucas e desenfreada, na saída do Marquês, não sei para onde – e nem sei se ela o sabia também – mas foi com mais segurança e obstinação. Continuei. Eu aqui e a miúda além. Pareceu-me feliz.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – Desilusão «como se»


Derreto os sonhos no lanço de os alcançar. É ao rés-do-chão da ilusão que encontro a dura verdade, sozinha e esfarrapada; e vejo como a ilusão é um castelo de cartas feito sonho, feito manhã, feito esperança num talvez; e que a dura espera é uma cilada demorada, que mói silenciosa as pedras, gastas, da saudade porvir. Os olhos percorrem, abraçam e acariciam a realidade, mas é na irrealidade que sorvem e escamoteiam a sua força. Arranco da realidade as escamas exibidas e ostento a nudez – foi nessa hora que teu sangue escorreu entre as minhas mãos e minhas mãos foram a impotência e a incapacidade; no teu sorriso reconheci a fragilidade e a delicadeza; e teu sangue a esvair-se do teu corpo, teu sangue feito nómada, encetou um caminho sem regresso, decidido e obstinado. E a vida, essa, deu lugar ao estar morto em ti – diz ao menos que ainda estás aqui!!!, que a solidão não se tornou um descampado de isolamento sem ti!!! – e em ti eu morri, ali, nascituro, entalado no teu sexo. Ah... o limite, o termo... ah... já não ouço a tua voz, já não sinto o teu calor, já longe vai a suavidade do meu nome na tua boca; diz-me, se puderes, onde estás? Onde estás para me dizeres o que podes? Teu corpo nos meus braços – foram tantas a vezes, a transpiração, o desejo, a força, o calor... – é uma tundra de medos, de mudez e de silêncio. O chão onde jazes está coberto com os sonhos que, juntos, parimos e contigo esfumaram-se no ar como as folhas no Outuno. De pés descalços, gelados, feridos de lascas a sangrar, é na terra fria que te sinto – a terra onde tantas vezes violamos, sexualmente, o desejo à força de agarramo-nos «como se» – ausente, para sempre ausente, para sempre numa distância que não entendo, que não percebo, que me violenta, que me destrói, que me dilacera, que permanece «como se». Os sonhos... a desilusão... «como se»... Derreto os sonhos no lanço de os alcançar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – Insatisfação


Experimentei no teu olhar o limite da minha existência. Nas tuas palavras, no que me foste sempre dizendo, em momentos sempre diferentes, em locais sempre oportunos ou inoportunos, em horas incertas, em ocasiões distintas; nas tuas palavras provei o sabor da eternidade, o enraizamento na existência, o sentimento de pertença, o cais da saudade no lanço conquistado. Foram nesses momentos, tal como agora, que a satisfação e a insatisfação cresceram juntas, filhas do mesmo gesto, do mesmo desejo, do mesmo acto sexual. A cada momento realizado, outro por realizar; a cada facto conquistado, um horizonte de possibilidades ainda por vencer. E o teu olhar, sempre certo, porque incerto, invadia-me nos lugares inacabados, nas sensações por cumprir, nos desejos por consumar, no sexo por ultimar, nas palavras infantes e inauditas; esse teu olhar que sabia das minhas moradas, das moradas minhas que eu desconhecia, que me sabia mais do que eu, no limite da minha insatisfação, foi acontecendo, foi tomando uma forma, uma figura desenhada que à força tentei descortinar, perceber, compreender, mas em vão. Parece que a cada esforço de aproximação, era a distância e a ausência que vencia; parece que a cada batalha vencida, era uma derrota que me cabia; parece que a cada conquista, era o alheio que se instalava. O que serei, quando for? No teu olhar experimento o limite da minha existência; experimento o morto, o morrer e a morte – enfim, esta frágil e sensual arte de viver. E tu continuas a olhar-me, a lançar na minha direcção esse mirar, essa admiração que espelha o universo todo inteiro – logo em mim – e eu, presente ausente de mim, sou um quinhão de termos bem definidos, uma promessa com o fim perpetuamente destinado. De onde me é dado que me olhes? E que me olhes como olhas? E que eu seja em ti o teu olhar? Que destino ou terrível liberdade originou tal ocaso previsivelmente imprevisto? Sob o véu do teu olhar, nada mais existe no Mundo, senão tu a olhares-me e eu a ser olhado por ti; nada mais existe no Tempo, senão tu aqui e eu frente a ti; nada mais existe no Espaço, senão dois corpos sendo um; nada mais existe senão a Existência, tesa e retesa, com cheiro a sémen e a rosmaninho.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Memórias de Óbidos - Mosteiro da Batalha


Sinto-me cansado; meus pequenos olhos não sustentam a percepção de tanta grandeza, de tanta imponência, de tanta arquitectura delineada – em curvas e contra curvas, colunas, fustes, capiteis e abóbadas em cruzaria, claustros em quadrilátero e arcos de alvenaria – de tão grande povo, dizem, este de ser português no louvor de uma grande Batalha e na Batalha sinto-me estrangeiro e apátrida.

Tanto louvor exterior de uma miséria interior, tanta opulência visível de uma pobreza invisível, tanta matéria com tão pouco espírito – nem o amor de Pedro e Inês, noutra geografia desenhada, atingiu tamanha façanha; nem as mortes nem a vitória de Aljubarrota adivinhavam tal destino petrificado, eternamente erguido, teso e reteso – a desafiar os céus –, deste Mosteiro. Ao menos, para quem o visita pode degustar-se com os Roma, os Sintos e os Calon (gypsies) – de berço indo-europeu – espalhados ao seu redor, a vender tudo o que corpo precisa e a alma anseia; regateie-se e com sorte é o Mosteiro que se hipoteca em troca de uma bijutaria – disseste que a fé é esta pose de andar em pé, erguido em humanidade, lembras-te?!, que ela é nómada… – que é de tal modo tão forasteira ao corpo que somente na lixeira encontra a sua moradia.

Talvez a Saudade seja o Mosteiro que nos falta, desenhada no Atlântico que nos banha e no Marão que nos envolve, no Alentejo que no inclina e no Algarve que no promove além deste aquém na raiz de ser português.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Memórias de Óbidos - Cabo Carvoeiro


Foi no cabo que me ergui em toda a minha altura de humanidade a ver o lanço da distância; numa ponta de Portugal vi o aquém que nos retém sempre nesta saudade que alimentamos, nas lágrimas que deixamos cair e na chuva que nos acompanha nos momentos de estar sozinho.


Olhei o mar, como quem olha a tristeza de um poço sem fundo; vi no horizonte o que nunca será atingido; pousei os meus pensamentos no azul, na brisa, no perfume a peixe grelhado da varina intemporal. E este mar imenso que anda dentro de nós – recordas-te de me dizer isto?! Sim, na naquela conversa que tivemos na praia, à noite, no Verão quente, onde trocamos beijos e sexo, onde me invadiste, violentamente, sem tocar; onde me foste morrendo, sem eu saber?! Soube tarde demais, o dia já tinha nascido, a aurora já há muito tinha passado e o sol te iluminou noutras portos de abrigo, onde eu não sou e tu és, onde tu és porque eu não sou jamais – deixa-nos com sabor a maresia.


Eis o Cabo Carvoeiro, neste Peniche bem português: quem quiser ver do que somos feitos, venha aqui, ore, de pé, frente ao divino mar, veja ao longe a Berlengas e na intimidade a Nau dos Corvos, alce as asas e saiba que sabe voar atlaticamente.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Memórias de Óbidos - Mosteiro de Alcobaça


Podre alma adormecida que não ascende às moradas que tem – é sombra, é tempo, é realidade, é momento atrás de momento, é loucura sempre coberta pelo nó das situações, estrangulado no osso da ocasião; triturado – aqui e além – da vida que a alma adormecida e adormecida se esfarrapa. As primaveras das manhas da alma deixaram de ser um aberto sorriso e ficaram mudas, ficaram onde não mais podiam ficar, naquele lugar de fronteira, ficaram na espera, no lanço do alcance, de um concreto idealizado jamais, onde tudo o que existe como sendo talvez se purifica, petrifica e apodrece com a candura não maculada; lá onde a alma adormece, onde o seu leito tem a vez mais do que o despertar, aí tudo se transforma na força negra de um anjo caído, cansado de voar e que, corajosamente, decepo as asas, honrando aquilo que, para sempre, seria este aqui; tubos canalizados, arranjados numa jactância de viver adoentado na eternidade, onde o sol da alma deixou de brilhar... tudo tem o seu tempo, a fugaz hora de adormecer, quando já não faz manhã, nem noite que salve uma alma podre. Aqui não encontrei fé, nem a procurei... senti o medo na alma pútrida... senti que a salvação, o outro mundo, a transcendência é feita de pecados!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Memórias de Jersey

Entalada no Canal ao sabor de um mar frio e de um vento gélido, garante de um beleza natural e artificial que enchem os olhos, é no horizonte que mato as saudades de ser ilhéu - não deste ilha, demasiado serena e burguesa, mas daqueloutra, rude, bruta, incivilizada. Mas a beleza nasce da sua utilidade, a natureza não lhe deu mais do que isso, o ser útil, uma espécie de pedaço de terra que vive vidas emprestadas, investidas por seres vindos de outras paragens e que sem ganharem raízes, vivem uma vida de espera, de dia de regresso, de expansão de emoções e de sensações onde a moral e a ética ficam paredes a dentro. Esta imagem comercial, elementar, tem a sua beleza de viver, de poder viver entre um ambiente multicultural, plural, egoísticamente, plural, onde a língua morre quando nasce, nos esgotos de uma linguagem que não se aprende, mas que se adquire em prol das necessidades primárias, das secundárias e de todas as outras que vão aparecendo. Mas esta ilha, berço do exílio de figura imponente, como Victor Hugo, não guarda uma cultura que lhe valha - morte antes de morrida, fria antes de esfriada - em cada canto vê-se o que não há ou somente o que há na beira do sexo, de horas perdidas, de sonhos sonhados, de bandeiras vencidas, de heróis mortos à beira e à praia mar. Não lhe devo nada, não me deu nada, tento tudo nela um pedaço de mim. E à luz daquele farol - que se diz o mais antigo e o primeiro que deu luz ao mar desta Europa - fica apenas o vento frio, o som das gaivotas, uma mulher bêbada que passeia um cão - talvez esperando qualquer coisa ou coisa alguma - ao sabor das críticas morais de quem passa, cuja felicidade se encontra no fundo de uma garrafa vazia. Há desejos de ser a garrafa, mas nunca a mulher, rasgada, consumida, desejada outrora pelos impulsos masculinos e femininos de foder, loucamente, um bocado de carne, dando eternidade na terra a um sonho porvir. Jersey... uma palavra em tantas bocas e línguas e culturas e costumes e morais e tudo diferente... esta Europa que nos escada na sua multiformidade, esquece-se da unidade que a sustenta, que tudo subsume e tudo produz diferentemente. A redução à unidade, donde nunca saímos, é onde teremos descanço, àquele átomo indiferenciadamente diferente, jamais divisível, é onde meu olhar descansou, sob o horizonte do mar de Jersey.





quinta-feira, 19 de julho de 2007

pequena loucura

«Em Lisboa não morro, mas espero... em Lisboa não moro, mas espero... limoeiro, limão do mar... estou sozinha e tu não vens amor... assim sozinha espero por ti... com a noite a madrugada vem... a dizer que vens, que vens... direi que não, direi que não... p’ra quê?»

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Se...


Se eu fosse morto como morre o som depois de emitido; a voz depois de calada; o sorriso depois de dado; no banquete dado aos vermos; na escuridão da terra; num espaço apertado; entregando o corpo emprestado; descansando o pensamento alheio;
esticando-me em todo o comprimento. Se eu morto fosse haveria som, voz, sorriso, banquete, escuridão, espaço, entrega, descanso e distensão.

Upa, upa… que já falta pouco

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Tu Tens um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Cecília Meireles

terça-feira, 3 de julho de 2007

SuSpEnSo

Poderia ter sido a realidade, mas foi tudo, foi o suspenso, a calma, o descanso, o outrora feito inconsciente.

Poderia ter sido o fim - o meu reflexo - e foi uma visão do alto, uma visão da minha altura.

Poderia ter sido o começo, o foi meu sangue que se esvaiu, que sucumbiu na estranheza de uma realidade estranha.

Fui eu e mais ninguém, o espaço e o tempo, a razão e a sensação, a vida e a morte, conjuguei-as todas de uma só vez e foi demais, subi acima de mim, desci abaixo da minha altura, percorri de lés a lés o pavio aceso que me ergue e foi na ponte do fim que me esperei, onde não havia ponta.

Fui eu e mais ninguém, a solidão sozinha de só na comunhão com tudo de nadas.

Fui eu e mais ninguém, e poderia ter sido realidade e foi somente real.

Também eu sou um fim: vi-o, senti-o, pensei-o! Agora, estou destinado a vivê-lo.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Hino

Homenagem à insustentável leveza do parto, dedicado às mulheres parideiras e à força de parir...

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Voo

Um voo dentro de mim
Uma praia cheia de pedras
Ondas que não me chamam
Mas são eu!

Águas mortas desta vida - sede -,
Searas do deserto
Brechas sem remendo
Alma sem janela
Corpo entupido de intuições
Confusões
Cruzamentos no meu meio
Num pasto sem ervas
Sem horizonte ou sol...

E só pedimos
Um nada de tudo;
Nem isso!
Isso nem está
para ser em nós,
neste mim/si.

Aqui sentado
Sem Sul e Norte
Tendo Tudo
De Nadas.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Apoquentação


Nunca pisei um chão de segurança,
Nunca descansei à sombra da azinheira,
Nunca dormi uma noite por inteiro,
Nunca tive paz nem descanso...

cheguei sempre depois da vinha vindimada;
depois da seara colhida e
só o joio ou o restolho me mataram a fome e o frio!
fui sempre ao sol do meio dia;
sem água e sem sal, descalço,
deserto a fora com calos e bordão na mão!
advim sempre em matinas sem acordar;
de olhos cansados, raiados de sangue e de lucidez,
sentado nos penedos naturais que a vista me alcançou;
ergui e fui sempre a controvérsia
baluarte dos miseráveis na terra dos ricos
uma bandeira rasgada,
um xaile da minha altura.

Sempre apoquentado, sempre
teço a anfibologia:
tendo e sendo muitos,
não tenho e não sou nenhum
– existo vivendo diferentemente o interesse – apoquentação.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

sonho que é de realidade [Imagem]


sonho que é de realidade

Há um sonho que é de realidade, há uma realidade que é de sonho, e há lucidez que se vai beber ali, de fronte, quando a chuva cai, serena sobre a terra, inesperada, molhada, gota a gota.

Ali onde houve sonho e houve realidade, aí mesmo, soube da morte, do morrer e do estar morto;

soube e não disse, como se fosse um segredo do qual se tem pudor, do qual se guarda timidez, uma certa tibieza pela sua existência, do qual há ruborização somente em pensar, em formar a imagem nítida ou obscura no pensamento;

soube e vivi, revivi e invivi tudo o que pode nos meus desejos, anseios, medos, frustrações, limitações, inibições, experiências, práticas e traquejos, e o que ficou de tanto senão uma vida feita de nadas;

soube e fiquei na ausência presente;

soube e fui na presença ausência insistente;

soube e soube-me – morte, morrer e estar morto – soube-me e soube.

fala-me de sonho, do embalo que tenho nos teus braços quando teus beijos me envolvem na loucura da sensatez; fala-me de sonho, da paz que meu corpo deu ao teu onde o limite transposto foi barreira e ponte; fala-me de sonho, do cuidar, do zelar, do velar e do trato;

há um sonho que é de realidade: morte é embalo, morrer é paz, estar morte é cuidar.

sábado, 9 de junho de 2007

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Olhar pesado

Respiração tirada à queima-roupa.
A cabeça sustenta o mundo, compacto, denso, quente, azul.
O corpo são léguas de lâminas apontadas para dentro, afiadas, cortantes, pontiagudas, verdes.
Violado, corrompido, forçado, invadido: o mar.
Sangue, desventrado ao amanhecer da vida, sangue.
E veio a noite e que noite esta...
De lés a lés o corpo era uma chama dolorida que vomitava calor,
Um vulcão faminto, furioso, que cuspe, a cima e abaixo da minha altura, o que sou por detrás do que pareço.

Agónicas enxurradas, ora em fumo – os pulmões – ora em lava – a garganta – e o meu corpo, como caravela – ora expondo a pompa aos céus, ora sendo embalado na goelas de Posídon – ia vendo as esperanças paradas!

Mas não há agonia que salve a vida que somos no sangue que derramamos!... – ah, Prometeu, porquê?! –

Insatisfeito, insaciado, descontente, irado...
Cospe do fundo, do negro, do vazio, do nada, da solidão a preto e branco,
O Cerberus
Demónio do poço,
Monstruoso cão de divisíveis cabeças
E cobras ao redor do pescoço.

Esperto, astuto, lâminamente astuto,

Infestou, quimericamente, o meu pensamento, a minha alma, o meu avesso – dura investida! –...

Alastrou, na Atlântida, do meu corpo, dos meus ossos, da minha carne, dos meus olhos – grito, grito, grito!... e quando mais grito, mais aflito! –...

Dominou, hora a hora, onde o tempo foi ausente e a noite sem fim;
Dominou, hora a hora, onde a eternidade amamentou lágrimas secas, estéreis;
Dominou, hora a hora, onde o corpo alucinou-se outramente inventado;
Dominou, hora a hora, onde a alma, liberta, viu-se acorrentada;
Dominou, hora a hora, entre a loucura sustentada e o vómito produzido.

Amanheceu...
Nem Posídon, nem Cerberus, nem Quimera, nem Atlântida... – amanheceu –
Esventrado, torturado, prazenteiramente, trucidado: eu,
apenas eu, no silêncio de quatro paredes brancas – minhas mudas testemunhas –,
apenas eu, na imensidão da geografia – meu Sul –,
apenas eu...
sim!
eu e tive medo de mim,
porque ainda vivo e sinal de repetição!

terça-feira, 5 de junho de 2007

Pausa



Antes e depois. Um vácuo preenchido pelo agora.
Ontem e amanhã. Uma distância de vazios.
Tudo e nada. Uma vida de miniatura.
Eu e eu. Um escândalo a olhos vistos.

Pausa.

Silêncio. Uma voz que grita do fundo do mar.
Lentidão. Uma vida de tormentos.
Vagar. Um cantar sem fim.
Parada. Uma tarde, o mar e o pôr-do-sol.
Paragem. O metro cheio de gente.
Interrupção. A vida que começa – parto.
Intervalo. Um beijo esquecido.
Suspensão. A vida que me vai morrendo.

Pausa.

Antes e depois. Um vácuo preenchido pelo agora.
Ontem e amanhã. Uma distância de vazios.
Tudo e nada. Uma vida de miniaturas.
Eu e eu. Um escândalo a olhos vistos.

domingo, 3 de junho de 2007

vEm devagar


Vem devagar,
sorrateiramente,
como quem não quer nada,
vem...

– aconchega-me nos teus braços,
lascas de lâminas de ternura –

e não digas por que é que vens,
vem somente,
sem razão,
sem liberdade,
sem escolha,
sem desejo...

– e dilacera-me o ventre
com o punhal da tua existência,
trucida a minha voz,
teu silêncio,
na tua ausência sentida –

vem impregnado de lucidez,
cega-me os olhos
e vazar-me a pupila do olhar

– seca-me a seiva da vida,
de um só golpe,
lento, demorado, pachorrento,
seca-me...
e não olhes para trás,
não!
Não olhes,
não vejas,
não queiras,
não! –

vem, este naco de carne,
putrefacto,
podre,
nauseabundo,
e regurgita o que podia ter sido
nado incriado.

– vem comer a morte que te sacia,
vem... –

Proximidade e Distância - Saudade


ReviRavoLta

Um calaFRIO doloRoso de sabOR amarGo e uma lâMIna que DIlacera nas palaVRas infanTES – naDa em troCa de tUdo – o fIm oNde o princÍpio comeÇa: saBer que a velHice nÃo me pERtence, que o teMPo me dArá o goLpe certEiro no momeNto exaCto da juVentude – sei-mE morrenDo e morTo, eSsa vIda venCida peLo o olHar, Pela bUsca, peloS deseJos, peloS anSeios e pelaS âNsias de podEr mAis e haVer, neSte aQuém, um horiZonte qUe a tesoUra corTa cedO deMais.

Umailusãoeumapaixão,p’raquê?

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Luz hibernada

Acorda, ó eterna Penélope, acorda!
Levanta-te desse teu fardo
Rasga, no chão – o chão onde amaste – o tear que te amedronta;
Enfrenta o destino – as ruas de Lisboa, as escadas... –
Tece, outramente, o futuro e os desamores
Não te prendas ao horizonte, sê eternidade!
Vislumbra na madrugada – onde fomos correndo à chuva, como me lembro: o sol adormecido atrás das nuvens cinzentas, deixavam as gotas da chuva cair como lágrimas, como lágrimas... – a última estrela, a luz que hiberna...

Sentir muito, profunda, longa e calorosamente... sentir
– onde estão os beijos que te dei? – ó eterna Penélope,
Cria os teus movimentos, faz do teu suor – que queima no gesto, como sempre me dizias – a loucura na ponta do desejo;
És Penélope e Ulisses:
És a proximidade que provoca ainda mais saudade – que aumenta a dimensão da entrega do desejo, disse-to ao ouvido – um paradoxo de lonjura
Nos movimentos do tear.

«Vou explorar-te toda com a minha boca, levar-te à loucura», disseste
Ó Ulisses, mas a tua voz é uma luz que hiberna, à fome...
Eu que te disse – lembro bem desse dia – recebo-te
Em minhas mãos
E no abuso haverá loucura e desejo e sons de prazer e calor e vontade e beijos e saudade na proximidade.

Mas houve nada.
Houve ninguém na estrada
Houve ausência na espera
Houve degraus no descanso
Houve sol, quando deveria ter havido chuva!

Foi deserto, foi gelo, foi um rio que não sabia correr...

– a ilusão e a paixão, disseste-me entre um sorriso embasbacado do prazer tido, é como um padre que ama uma menina – E o dia rompeu, a aurora chegou para ti, com a partida de Ulisses, ó Penélope!

Redesenha o teu corpo
Lava a tua cara
Enxuga as tuas lágrimas
E com o cales nas tuas mãos
Colhe a luz que hiberna jamais.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Firmamento


[…]

Firmamento deste universo que
Envolto no estrelar
Ri-se destes pequeninos
Nós, aqui olhando
As alturas do
Nunca...

Dias depois
Esclarece que
Ser é olhar!

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Sol de Inverno

Esta cantiga não é para ninguém,
mas tão-somente para quem a puder entender.
Solrac


Sabe Deus que eu quis
Contigo ser feliz
Viver ao sol do teu olhar,
Mais terno.
Morto o teu desejo
Vivo o meu desejo
Primavera em flor
Ao sol de Inverno.

Sonhos que sonhei
Onde estão
Horas que vivi
Quem as tem
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém

Beijos que te dei
Onde estão
A quem foste dar
O que é meu
Vale mais não ter coração
Do que ter e não ter, como eu.

Eu em troca de nada
Dei tudo na vida
Bandeira vencida
Rasgada no chão,
Sou a data esquecida
A coisa perdida
Que vai a leilão.

Sonhos que sonhei
Onde estão
Horas que vivi
Quem as tem
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém.
Vivo de saudades, amor
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de Inverno
Não tenho calor

De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém.
Vivo de saudades, amor
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de Inverno
Não tenho calor.

Simone de Oliveira, Intimidades

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Ausência



«... nem sequer impossível. A verdade, como silêncio, existe apenas onde não estou. O silêncio existe por trás das palavras que se animam no meu interior, que se combatem, se destroem e que, nessa luta, abrem rasgões de sangue dentro de mim. Quando penso, o silêncio existe fora daquilo que penso. Quando paro de pensar e me fixo, por exemplo, nas ruínas de uma casa, há vento que agita as pedras abandonadas desse lugar, há vento que traz sons distantes e, então, o silêncio existe nos meus pensamentos. Intocado e intocável. Quando volto aos meus pensamentos, o silêncio regressa a essa casa morta. É também aí, nessa ausência de mim, que existe a verdade.»
J.L.P., Cemitério de Pianos

Qualquer coisa


Há qualquer coisa na realidade que me acusa, que me adverte, que do funda da existência eleva-se acima de si e abaixo de mim, envolvendo-me num manto terrível de dúvida e de olhar fundo, reversível ou intransigente, revelando escondendo um porvir disperso, estendido de lés-a-lés no horizonte, no lusco-fusco que mostra e esconde a sua claridade, deixando-me suspenso na antecipação – sabida e ignorada –, uma espécie de crueldade querida, amada, saboreada e regozijada no vómito de nenhures para este aqui, presente, indolente, premente de ser um porvir inacabado, sempre à janela daquele navio que está no cais e não se sabe no alto mar.


terça-feira, 22 de maio de 2007

Reflexão abusiva

Onde é que tudo foi morrendo?
Onde é que o começo foi prenúncio do fim?
Onde é que, afinal, o kairos deixou de ser, e deu lugar à fatalidade, ao irreversível, ao terrível «tem de ser»?

Esta manta de vivências, de experiências, de desejos e de inibições;
este bordado alinhavado à largura da existência;
este pavio que queima, apagando-se e acendendo-se continuamente;
de tudo isso ficará ao menos, na finalidade de tudo, uma baba como a do caracol que brilhe quando o sol nela descansar os seus raios?

Em cada momento da vida somos o vazio do que poderia ter sido cheio;
somos a imperfeição do que poderia ter sido perfeito;
somos os lábios onde deveria ter havido o beijo – e houve o Sul, sem mais nada;
somos a vida, quando é na morte que tudo se clarifica.

Damos passos, tomamos caminhos, seguimos desejos, apanhamos a chuva que cai das nuvens, enchemos o olhar com o sol da tarde, abundamos as narinas com o perfume da Primavera, besuntamos o corpo com as palavras de silêncio – e mesmo assim somos esse recipiente ora meio cheio ora meio vazio – e haverá diferença entre os momentos em que estamos meios cheios ou meios vazios?

Não continuamos a ser sempre o mesmo do mesmo na diferença dos dias – sendo a diferença os dias ou o mesmo?
Esta real ilusão que arrastamos, buscando nos momentos a vivência e a experiência;
a colher – pedintes! – a gota de orvalho que vai se formando, disformando e informando ao nosso olhar.

Somos este Medo que se espera na estrada do fim.

Somos o Terror do Medo sem fim.

Somos o sítio frágil do mundo que é Fim.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

A leveza do Embondeiro



A vida emerge sempre de qualquer pequeno mistério que a lança acima das nuvens pela chuva que foi chamada a cair.

Na leveza ou na brandura existe sempre uma simplicidade de rosto, de sentimentos, de temores e de sensibilidade que nos prende e abre para outras lonjuras...

- tu bem o sabes -

Foi nossa alma que chorou ali, lembraste?

Foi, também, ali que ela cresceu, entrelaçada, nos braços do Sul...

- ainda sentes? -

Amanhece num piscar de olhos

e na sombra da árvore Embondeiro - onde fomos morrendo -

já nem o fresco nos arrefece...

Nem mesmo a folha simples - aquela folha, recordas-te? - que cai

ou o fruto que nos galhos - ai!, nós e o galhos... - amadurece,

nem mesmo isso foi

o que "Nós" na Alma

perdura e, no todo de mim,

é leveza.

Névoa


Manto de realidade
Torcida no tempo fugaz
Na neblina que não passa nem se desfaz
Há movimentos, há tristezas, há gente
Há criaturas que crescem e outras que desaparecem
Umas que são, outras que não são
E o silvado selvagem
Não sabendo de fronteiras ou limites de partilhas
Calcorreia terra acima e adentro
Apoderando-se do meu e do teu
Fragmentando o que a lei talhou!
Firmes, hirtos, grandes, pequenos
Verdes ou esverdeados
Secos ou maduros
Ali não há gente
Não há humanidade nem crueldade nem sentimento
Ali há silêncio
Que ninguém governa
Que ninguém extingue
Que ninguém conhece.
Terra de ninguém, terra de desgraçados
De mãos carcomidas e de pele talhada
De olhos fundos e de face endurecida
De inocência cruel e de maldade frágil.
Gritos, gemidos, sons ou vozes
Barulho ou sinfonia
Um momento de afazeres, de parires e de gozo
De loucura aceite
Na teimosia do tempo de gota a gota.
De norte ou de sul
De figurais cardeais do não
De horizonte agrilhoado
De realidade suspenso
De nada.
Fim, antes de início
Sentir decepado
De raízes e de altura
De calafrios e de visões vazios
De torturas e melancolia
De outras aventuras e de lugares
De gente
De animais
De plantas
De verdura e de natureza
Espontânea manifestação
Ou fenómeno contorcido
Água barrenta!
A névoa calcorreia
Transcorre o lés
Onde tudo faz sentido
Onde tudo tem o seu túmulo
Onde tudo recolhe a cinza de ser
Bom ou mau
Alto ou baixo
Grande ou pequeno
Gordo ou magro
Certeiro ou desacertadoNa aventura do abraço da névoa!

Cede


Cede,
lentificada pelo tempo fustigado no pó das letras,
a imagem da memória de ti
recriada nos espaços que ocupo.

Penso que aqui não há nada
e é precisamente aí o lugar em que te encontro.
Julgo reconhecer todo o vazio que ocupas de mim e sei

- com a certeza de quem não crê –

que tu és o absoluto.

Pé ante pé
sigo os passos que deixaste no caminho
por onde eu não seguia, não seguia…

- eu sem seguir -
até te ver partir.

Silencio as dores no embate das pedras
feito terra
feita sangue
feita cinza.

E nada a restar
para além da imagem de ti,
agora no pó
já não nas letras.

Eu a escrever o que não soube dizer
e tudo a cair por dentro da terra
num gesto de quem não sabe segurar
num sopro de um vento que não sabe tocar.

Ontem a ser o hoje em que te deixei partir
e eu já não na espera,
talvez já não na espera,
mas na certeza de ter cessado o tempo inteiro de mim.

Devasto os lugares que ainda têm vida
no meu corpo
no corpo que estripaste na suavidade dos dedos frios
e remeto-me inteiro para o lugar em que termino.

Encontro-te na distância do meu reflexo.
Eu nada.
Reflexo da distância tua do encontro teu

- já não em mim.
Tu nada.

Há um vazio imenso
no espaço que vai de mim até ao lugar onde cessaste.
Eu nos passos do teu caminho feito agonia
a procurar-me na poeira.

Tu a gritares o silêncio contido.
Teus gestos na lâmina e o meu sangue,
o meu sangue,
a ser a certeza da tua existência.

domingo, 20 de maio de 2007

Retorno

A chuva chegou sem aviso; caiu sobre o mais acautelado tojo adormecido, refrescando a terra e lavando o sarro das marés quentes de um Verão que se pronuncia antecipadamente. Por mim, disse que sim, sem receio e deixei sair estas palavras balbuciantes:

Ó Prometeu livre e condenado
Onde o castigo é redenção naquela tarde
Onde o animal te devora, onde me vou sendo fígado e castigo
E animal à mistura.
Mas de todos, quem é o mais castigado?

Falamos do Prometeu, ficamos de olhos postos naquela liberdade e naquele fogo de pensamento e o esquecimento é grande para a pobre águia que todos os dias, no final da tarde, ao pôr-do-sol, querendo ou não, tem que o comer, devorar, para depois, numa espécie de loucura, voltar a crescer e a ser comido... até onde vai o castigo que devora?

Em que tarde a perdição foi encontro e onde somos Prometeu e Águia conjuntamente?

Quão grande castigo é este que se comete para ser furtado à possibilidade de haver possibilidade. Este poço, este fundo sem fundo, esta queda na qual vamos sendo isso, não tem retorno, não tem fim, não tem um termo, apenas cair, sempre, até não haver mais queda: na realidade, não existe fundo, ou piso de segurança, ou qualquer coisa que nos valha, somente a queda, sempre a cair e a aprendizagem com esse cair...


Caio e continuo: eis o que sou – uma queda sem retorno.

ETROM






















Encosto ao túmulo frio
O aquecido corpo da vida
No jazigo duro da morte
É onde arrefeço a moleza de viver.



Tumular pedra lisa de inscrição
De nome ou data
De um vestígio de vida
De uma vida de vestígios.



Jazigo podre, nauseabundo
Lugar apertado de fechado
De cheiros privado:
O que somos do que fica!



Dor de vida e da última gota
Engilhado de viver
De acertar o passo com a colheita,
Ceifado de olhos abertos.



Túmulo, jazigo: a ceifa
A paz de um campo lavrado
Onde a promessa se cumpre
De um destino acatado!



Estas é a hora, aqui como outrora, ora pois: que seja de uma vez, o lavrador e a ceifa, a estação que dá de si!

sábado, 19 de maio de 2007

Reflexo


O vazio de uma escada. Os degraus solitários. A ausência de luz. O ar pesado. Os pulmões com fumo. Uma semelhança intrínseca. Dias de sol. Horas de chuva. Gotas de lágrimas. Segundos demorados. Olhar perdido. Recordações recuperadas. Um vão de escada. Um reflexo. Um vazio de nada. Uma escada.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Procura




"Man has places in his heart which do not yet exist, and into them enters suffering in order that they may have existence”.

Sobre a manhã


A pedra da calçada que piso fica delapidada
E os percursos que faço, desfazem-se
Esfarelo entre as mãos o destino
É no pó que me revejo, é na cinza que ganho asas.

Os caminhos que trilho
São as desgraças ganhas em prémio
São os dias vazios e as horas sem tempo
Os caminhos que trilho

Para onde vou?
Chove na minha vida, como no inverno que me pariu
Chove na minha vida, as lágrimas que derramo no silencia,
Nos sorriso que dou, na mão que estendo,
No olhar que lanço, no toque que quero dar e é-me vedado...

Apetece chorar sobre a manhã
No canto da minha vida, na relva verde em que me deito
Apetece ser a manhã e jamais voltar,
Morrer ao início da tarde...

Mais do que a solidão é o vazio que consome, que esfarela na sua mó, a solidez do sendo; mais que a solidão é o vazio que arrebata matinas sem acordar; penso que poderei engloba-lo todo, mas sendo ele tão grande, serei eu quem perecerá no fim, como tem que ser... e quando for cadáver, frio, deixarei ao mar a minha herança, porque só ele tem fundo para o vazio que carrego.

Espiral


… e eis que o véu do templo sobre mim se rasga,
deixando transparecer a beleza apodrecida dos anos,
de um tempo que se vive inversamente para dentro,
sem colher da calçada o frio terno que ela emana.

… será que o destino, esse fogo cinza,
essa imensa altura que paira seca
se deixa apaziguar, algum momento,
apaziguar?!

… e eis que no passado das vidas enroladas,
uma foz falou demais em momento inoportuno
fazendo murchar aquilo que poderia ter sido
e sido grande, mas nem pequeno em forma foi!

… trágico, tremendo e fascinante:
o horizonte, que há na divisão dos céus,
é feito de chuva,
chuva?!

… e eis que o futuro, esse leque de gueixa,
incendeia a brasa já queimada
a madeira que se fundiu de arder.
quando o grande se tornou pequeno.

Expressão


Imagem tépida, endurecida
Olhar fechado, frio
Tábuas de moradia, estranho
Cantares perdidos, momentos
Mãos coladas, dor
Pé juntos, caminho
Ar podre, pulmões
Nome, um destino.

O Sul mostra a sua face pelo direito
As searas cantam a brisa
As vindimas prenhes
Uivam com as matilhas e alcateias.
Há tanto de vida, de sangue, de herança
Tanto há.

A custo se vê o que não há
A custo se sente que não há
A custo se pede o que não há
A custo se toca o que não está.

Um assunto resolvido
Uma espiga e um moinho
Uma lápide que nunca teve mão.

Cheiros laminados, cozidos e esfregados
Odores de coisas que nunca senti
Um vazio que não tem nome
Que não tem figura
Que não tem sentimento
Que não tem paz.

Dou-te a minha paz, paz que não tenho
Arranco de mim um bocado de ti
Para tu seres aí melhor que foste aqui
Em mim o que nunca soube que eras em ti.

Dou-te aquilo que me falta
O que não tenho
O que nunca tive
O que em mim será sempre ausência
Aquele lugar de expressão
Por preencher, por encher
Por ser.

Arranco de mim um perdão que não tenho
Porque não há culpa figurada
Porque não há sentimento sentido
Porque não há desejo e atracção.
Parado.

Lavro em mim essa realidade
Essa herança que te deixo levar
A enterrar

Abre os olhos ao menos uma vez
Olha em ti o que de mim há
Cheira e saboreia o que ficou indo
Canta, sem voz, aquilo que ficou no silêncio
Obra, com as mãos, os pés de caminhadas
Por encetar.

Diz ao menos que sim
Que há tempo quando não houve
Que há hora quando era findou
Que há qualquer coisa onde há nada.

Dou-te a minha voz
A minha palavra
Aquilo que sou
Para seres depois.

Reticências

E a história resolveu-se
Escreveu-se sem pena, sem tinta
Foi tomando forma e lugar
Foi lançando nas palavras por dizer
Qualquer coisa como coisa qualquer.

Enunciação,

representação,

manifestação,

frase,

locução,

palavra,

aspecto,

fisionomia,

vivacidade,

animação,

expressão:

feneceu.

Foi na vida que a seara se talhou, nesse campo lavrado, nessa vindima executada: uma seara que acusa o Outono. A corda tanto esticou que viu o seu termo, a ponta tão final que foi horizonte do princípio, daquele início onde o parir, gemido e sangrento, relatou a miséria de começar a viver nas entranhas para viver sem elas. Não há história, nem distância, não há realidade ou memória, não existe um traço que possa ficar, onde ficou, para poder contar, relatando, ao sol a espiga de trigo amadurecida, mais pela terra, do que pelo sol. Faço um convite à expressão, a esse movimento direccionado, a essa realidade visível, para poder ver aquilo que a memória não recorda como lugarejo, faço o convite.

23 de Agosto de 2006
Dia da Santa Rosa de Lima

Kairos

O tempo regressa, sentado nas escadas da velha cidade, onde a chuva tarda a chegar. Os degraus inclinados, gastos, inclinados e frios; os pés descalços e as horas mortas; a espera é uma trama, um jogo de saias baloiçando ao vento. Kairos: onde tudo foi morrendo.