quinta-feira, 22 de maio de 2008

Caminho

«Esta é a estrada que me destrói e que me puxa. Única e última. Este caminho que não é estrada. Este céu que não traz o silêncio, mas que o grita quando o silêncio é insuportável. Penso: talvez eu já não seja este corpo que me tornei, talvez eu já não seja esta forma dentro deste corpo, talvez eu seja eu já morto só a sofrer, sem vontade, só à espera da morte que nunca chegará. E no entanto, nesta tarde insepulta que une e divide o mundo, atravesso qualquer coisa que sou e que conheço. [...] E o cansaço que me prende liberta-me na imposição de continuar.»
J.L. Peixoto, Nenhum Olhar

terça-feira, 13 de maio de 2008

Nascimento


De regresso às fragas, aos pinhais e aos calhaus;
às sebes abertas, às courelas vindimadas e aos açougues amortalhados;
às terras do centeio, às granjas e aos seixos;
aos picos, às covas e às cruzinhas.

De regresso, sem dúvida, à telúrica soca que me pariu, à maresia que me viu antes do tempo.

Foi nos pinhais que houve a primeira lufada de ar fresco, foi nos calhaus a primeira experiência da dureza do mundo, foi nas vossas faces que vi, antes de saber, que eu era mais do que isto e que vos vi além, que vos esperei na ponte do fim.

E nas tuas mãos, encarquilhadas e calejadas de rudeza, tive o toque, a suavidade, a delicadeza do ter sido parido.

Três voltas dadas, três décadas passadas, três personagens encetadas! Uns capítulos após outros foram sendo encerrados noutros novos abertos: sempre tive medo, mas a força atlântica foi sempre mais forte, foi sempre mais forte o traço de horizonte que em mim habitou, que em mim rasgou os mais obstinados penedos.

Hoje estou aqui: despido, usado, abusado, corrompido, talhado pelo tempo, mas ligado à raiz mais funda que me alimenta, intocada, intocável. Ouço, ainda, na longinquidade, a tua voz, o teu sorriso, o teu abraço forte e quente.

– onde estás, quando já não estás, depois de tudo, de tanto tempo, de tanta ausênciapresença? –

De regresso às fragas, aos pinhais e aos calhaus;
às sebes abertas, às courelas vindimadas e aos açougues amortalhados;
às terras do centeio, às granjas e aos seixos;
aos picos, às covas e às cruzinhas;

De regresso e aqui estou: sem certezas e cumulado de dúvidas!

Até onde for, será!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Criatura – a brutal incapacidade

Os caminhos que percorremos são só nossos e nossos somente. As vidas que vivemos dentro da vida, os sentimentos que temos, dentro dos sentimentos, os olhares que lançamos dentro da possibilidade de ver, os toques que oferecemos nos traços desenhados de um outro ser; será tudo isso orquestrado? A náusea de um nauseado... Hoje foste tu que viste ao meu encontro, que do longínquo deserto deste-me de beber um pouco da tua água que sempre me acalmou, que no silêncio, na ausência de palavras sempre me soubeste melhor do que eu. Nunca me pediste nada, nunca me exigiste qualquer coisa, fosse o que fosse; e a tua presença sempre presente, em símbolo de contradição, foi sempre mais longe do que eu poderia querer, do que eu mereceria. Viste sempre o meu lado negro, profundo e abissal, sempre soubeste dele; e nele sempre conseguiste ver oásis e flores e vida; sempre apontaste a luz, o horizonte, o trilho no deserto que coloca ordem no desordenado. E parece que tudo se resumiu certamente à minha brutal incapacidade de voltar a confiar e a dar (onde fui morrendo?). Ainda, parece-me, faltar tempo para me reencontrar na certeza das decisões depois de tudo o que vivi, sofri, vi, senti e consenti: eis a criatura, nua, crua, brutal – quem quiser vê-la, quem quiser lê-la, que arranque os olhos e cheio de fé a veja! Perigosa? Certamente que sim! A alma também adoece, também vive ferida, também sofre com os rasgões dos golpes desferidos: as dores nos ossos da alma sararão as feridas abertas e enxugarão as lágrimas derramadas, quando o nascer do sol for oportuno, novamente; entretanto, o caminhar no deserto far-se-á na solidão.

Triste manhã...


Há horas de angústia... sempre me perguntei «que haveríamos de ser, quando fôssemos?» e parece que a pergunta sempre conteve, largamente, a resposta. Triste manhã que a mim mesmo me pareço, um erro, um sonho deixado no caminho ido. Cavo em mim o nojo e a repugnância, como o lavrador numa seara estéril, estrangeira à semente. Lavro sulcos duros do complicado que sou, do que parece que veio a ser em mim, ausente de realidade, de espanto, de destinos. Onde e para onde vou, se em tudo o que toco corrompe-se? Triste manhã... mim, frente a mim mesmo, uma decomposição a decorrer durante a manhã da vida. Grito!, aflito e sem ar: estou sem fôlego, mas enquanto vida houver nas gotas de sangue, das quais sou indigno, ainda hei-de andar na verticalidade que outrora fui e da qual tenho saudades.