terça-feira, 27 de novembro de 2007

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– ouço a tua voz que vem de longe, da tua voz que mora no outrora, noutro tempo, talvez numa outra vida... mas foi nesta, não haja ilusões sobre isso, que rasgaste a minha carne, fizeste de mim o teu sangue derramado, que, por fim, insaciável, deixaste-me moribundo com a dimensão da tua partida, sem palavras, sem despedida, sem uma razão; talvez porque não as houvesse ou se as havia, não havia palavras que as verbalizassem, e o silêncio, o indizível, o calado foi o lanço que rematou o horizonte fechado do teu rosto, ao longe... –

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Caderno de Apontamento – Ilha Terceira: Angra do Heroísmo

Dirijo-me à janela do meu quarto de Hotel, abro-a e é o mar que me visita – não o mar feroz e agreste, indomável e violento da minha terra, onde me deixaste a morrer, recordo-me como se fosse amanhã – e o céu cinzento sobre o mar azul, o banho de espuma na costa e na areia negra são os degraus de uma alma que se sabe descansar.

As ruas estreitas e largas, com nomes conhecidos e outros desconhecidos, estórias e histórias que elas contam; o som das vozes e do comércio, a lota do peixe fresco e dos carros na calçada, são imagens de adormecer, sob uma chuva ténue que cai sobre o meu pesado rosto de viver.

Um jardim cantoneiro à cidade, com árvores e plantas e tantas coisas com nome: sentei-me junto a uma magnólia roxa. Procurei descansar ao sabor dos cheiros e do vento que soprava entre o descanso da chuva. Tenho a terra das ilhas entranhada na minha alma. Sou um ilhéu com o tamanho do mundo. Não tenho pontas nem oceanos, não sou de penínsulas nem de continentes: sou uma ilha e o universo é o mar que me banha – foram as tuas palavras, junto ao calhau, quando a morte te me visitou, na presença minha, a tua ausência foi pó das estrelas, onde fiquei, foi onde a tua ausência fez-se notar; rasgaste-me de lágrimas, lancetaste a minha alma, fizeste meu sangue jorrar como uma cascata a teus pés; onde tudo foi morrendo, foi meu corpo que se dissipou; onde tudo foi o que quiseste, fui eu que fui imensidão: ao teu colo, o meu sono de descanso foi planície; regressa de novo, novamente, onde não pode jamais haver retorno; onde o tempo passa, tudo é precipícios abissais de quedas sem fim.

Angra do Heroísmo: o atlântico como casa e a terra como refúgio. Ali vi o mar e a terra, vi o verde e o azul. Ali senti de novo a ilha. Ali fui ver a seara da morte: e estava viçosa!

domingo, 18 de novembro de 2007

Caderno de Apontamentos – Ilha Terceira: Praia da Vitória

Como é largo e imenso este Portugal!

Com os pés na terra – as largas planícies e verdejantes, num dia solarengo, da Terceira – e com os olhos enraizados no mar, a Praia da Vitória até faz apetecer cá viver. E essa água, de ventre maternal, embala a terra suavemente, na terra do Nemésio, sem o mau tempo no canal: uma paz podre que não durou muito. Olho em redor e tudo é imenso, grande, largo e apetece deixar a existência descansar e escancarar-se ali. Tudo tão desenhado, tão perfeito que nem parece que estamos na terra da imperfeição. Ah... e os sons, os sons do Portugal na boca de quem vive, falando a língua de Camões. Se eu não fosse madeirense, teria gosto de ser parido nesta baía, num dia solarengo, de mar calmo e azul, de olhos postos no verde telúrico. Aqui não há melancolia, nem tristeza, nem depressões, apenas uma alma lusitana que floresce bravamente no meio do Atlântico – sim, no meio de tanta água, de tanto isolamento e de tanta distância, a qual se canta, em cada canto, no som do vento.

Fecho os olhos, deixo-me ser no som e no silêncio do vento, não mais além nem aquém, somente o sangue lusitano, a carne atlântica e o esqueleto europeu.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Caderno de Apontamentos - Bruxelles au Metro

A noite mal dormida. Uma cama dura. Diferente. Impessoal. Mal amanheceu – mas aqui o amanhecer e o anoitecer confundem-se com o negro, com a noite, com a imensidão da planura ... – já estavam meus passos nos passeios escuros de Bruxelas. A caminho.

Apanho o metro em Annessens: direcção à Gare du Nord; saio em Rogier, apanho outro metro em direcção a Clémenceau e saio na estação Madou. Estações sujas. Frias. Velhas. Gente. Multidões. Um labirinto de linha férreas debaixo da terra – zummmm.... zzzzuummmm... plimm ppplllliiiiiiiimmmm – e um papel na mão para não me perder. Há um sentimento de solidão quando se anda de metro; de solidão e de amargura. As linhas férreas parecem uma prisão de destinos, somente aqueles e mais nenhuns; não há opção senão as predefinidas; as saídas de metro mais parecem dilemas existenciais: onde irão dar realmente?! Um caminho de subterrâneos que ora sobem, ora descem, onde se sentem odores animais e naturais, a café e a bolos – não, nada a ver com Belém... – e caras sem expressão, sem tristeza nem alegria, apenas caras.

Saio em Madou. Olho o edifício Madou, na Place Madou – quem diabo foi Madou, se foi pessoa? – que imponência de vidro se ergue aos céus – sinto frio, está frio, sentes frio, eu sinto e está vento, um ventinho inconfortável –; movimento-me, espero junto à passadeira, dirijo-me para este palácio de cristal e preparo-me para o apertado cerco de segurança – aliás, não deveria ser a existência a ser objecto de segurança? Por que é que são os artefactos somente os únicos considerados possíveis armas de ataque, armas brancas ou massivas? O segurança não quer saber disso, não faz parte; bom, que entre tudo e que fique o material cá fora – e dou o meu nome e a minha identificação completa, verificam no computador, mandam-me entrar por uma porta, que leva a outra e a outra de seguida e virando à esquerda, apanho o elevador, quando dou por mim, estou no nono piso.

E tudo começa: God morning! How are?! Welcome, I’m pleased to see you again in Bruxelles! How is the weather in Portugal?. Bom, apetece-me voltar para o Metro...

sábado, 10 de novembro de 2007

Caderno de Apontamentos – Bruxelas (Bélgica)

O aeroporto estava vazio e, por um momento, parecia que o mundo inteiro cabia ali, naquela imensidão em altura e largura. Bruxelas, 01h00m. Caminho sem pressas entre escadas que sobem e que descem para colher a bagagem. E quando a colho, puxo um peso existencial – parece que também somos o que levamos, tantas vezes me disseste, num olhar, num sorriso que fazia transparecer o tempo na tua face e que a face do tempo te me levou – até à porta do aeroporto e aproveito para fumar um cigarro, após várias horas de salubre avião e aeroporto, sem nicotina no sangue. Táxis parados. Negros. Parados. Gente. Diferente. Fisionomias. Países. Culturas. A existência. Tiro um cigarro, acendo-o e a primeira bafada tanto sabe bem como arde infinitamente, inflamando a alma. Táxis negros. Escuros. Lindos. Trajectos e outras direcções – a vida que se expande em ser vista, por tanto lado e de tanto lado.
[Estou sentado num café. À minha frente tenho um canteiro com uma árvore verde plantada. Uma árvore desenhada ao cuidado destas gentes do Norte. E o natural, livre, bruto e espontâneo não cresce senão à socapa. Não admira a ideia de Deus ex machina não tenha sido portuguesa. A nossa desorganização é o que de mais próximo e natural se tem com a natureza. Em Bruxelas tenho sempre o desejo de me tornar num animal sanguinário, uma espécie de predador das savanas africanas, sem fronteiras, sem moralidade, somente animal. Mas a minha animalidade afrouxa-se perante o que é a expressão bestial – de besta ou de magnifico... – desta gente que também é portuguesa, falante do francês, tal como os portugueses são belgas!].
Entro num táxi: Bon nuit, monsieur ! Bon nuit ! e após uma troca de palavras, lá estou nas estradas bruxelenses. Chove. Tempo magnífico. Estradas largas. Frio. Chove. A única coisa estranha é o taxista: nunca vi tantos traços contínuos pisados e transpostos, mas afinal o homem tem alguma razão, eles foram feitos para isso mesmo: serem violados. Cheguei ao Hotel. Cansado.