segunda-feira, 10 de março de 2008

§ ... -> ! <- ... §

Há criaturas em que a própria existência bafeja nojo de nelas existir! Criaturinhas encarquilhadas, pseudo-mundividências projectadas, vómitos psitacísticos, energias negras de ocacidade! O prenúncio de abrirem a boca é como se nos abeirassemos de imediato de uma lixeira: tudo pôdre em vestidos de cetim! Minha humana raíz, banhada nas águas salgadas do Atlântico, nascida do penedo telúrico e vulcânico, torce-se e contorce-se só na presente de tais acontecimentos! Nunca gostei de grandes indumentárias no encontro com o outro e nas grandes ocasiões celebrativas sempre tive gosto de aparecer a nu. Criaturinhas de gentinhas onde a vida brada, sufocada, por uma clareira de lucidez no meio do emaranhado: felizes são as pedras que ao menos cumprem a sua finalidade, o seu sentido; e mais bem cheiroso é o monte de estrume, ao céu aberto, que produz aquilo que é; as criaturinhas são somente o abaixo de reles...!

quinta-feira, 6 de março de 2008

Ausência


A ausência é o ponto de encontro; é o nada onde tudo acontece; é o deixar de ser um mundo, para ser um outro. Os laços que tecemos ao longo da vida, a vida que se tece ao longo dos laços, tem a fragilidade de uma aurora: só a capta quem estiver atento, só a sabe quem for oportuno, só a tem quem a compreende.


Esse tão grande, largo, imenso, vasto ponto de encontro toma sempre a forma de encruzilhada, onde tudo se decide, onde tudo se cinde, onde, ultimamente, tudo se parte em bocados, por que só em bocados é que a vida toma um sentido definitivo.


A ausência é a maneira do longe fazer-se presente, do querido tornar-se intrínseco, do outro ser do meu sangue e da minha carne e partilharmos as mesmas dores e sentimentos e pressentimentos, tudo à mistura nos ossos encarquilhados de existir.


Por que é que tudo acontece na ausência, no nada? Quando vou de metro uma estação leva sempre à outra - pelo menos realmente... - mas a que ficou sediado no tempo lá atrás, [h]à espera de outro comboio e de outras gentes - apressadas, esquecidas, felizes ou sofridas - vai ganhando novas cores, novos cheiros, novos sons: uma vida que nasce onde o vazio nadificante parecia trinunfar.


A ausência é o ponto de encontro; é o nada onde tudo acontece, é onde tudo vai morrendo, onde sou morto. Onde sou morto de ti e de mim, de tudo e de nada, vivendo novamente, outramente o mesmo na alteridade que pensaria jamais existir em mim.

segunda-feira, 3 de março de 2008

] NaDa [

... foi de repente, sem tempo de resposta, sem lugar a resposta - lembras-te do momento, da figura desenhada da minha face, da lágrima que correu na solidão e no silêncio, que caiu sem som, sem dizer que existia, que teve lugar, que foi aquela vez e não outra? - onde a pergunta ficou suspensa no horizonte do teu olhar... se me recordo! todo o meu corpo é uma questão, interrogada, no tempo, no espaço que me separa de ti, aqui, neste vão onde até o eco se ausentou - as tuas mãos salgadas no meu cabelo, a percorrerem a minha face, o teu beijo que foi longe demais, porque nunca foi dado, sempre promessa de comprimento, de acontecer, naquele penedo, onde a ilha aprendeu a ser mar... - ... foi de repente, sem tempo de resposta, sem lugar a resposta que dei por mim morto de ti.