segunda-feira, 28 de abril de 2008

Lembrança de memória...

Vinda não sei de onde, não sei como, não sei porquê, a tua memória – só tua e tão longínqua que já vai: onde estás, como és agora? – preenche-me o vazio de recordar.
Lembro-me das tuas mãos – talhadas pela urdidura do sol e da terra, pelas duras pedras lavradas na tua esperança, pelo suor, gota a gota, do teu corpo no mar azul – e do teu rosto – tão presente, essas linhas desenhadas, cada uma delas cheias de estórias e de mágoas, de lendas e de contos, de tantos outroras mortos antes de nascer – recordo-me de ti em mim e de mim em ti com tal clareza, maior do que aquela que tenho de mim mesmo aqui e agora.
Foi cedo demais, foi o tempo, a oportunidade, foi!
E foste-me em ti decepado, como se decepa a videira após vindimada – mas havia ainda tanto para dar, tanto onde colher... – por aquela terrível mão que não sente nem pressente.
Quando volto às águas do Atlântico, quando me embrenho nas raízes soltas que plantaste e no precipício, quando percorro os caminhos e as veredas que, com um sorriso, me ensinaste, quando é aí que te me lembro: e sinto o cheio a vindimas, às colheitas de Setembro – sabes, aquele mês, onde tudo cheira a vida, onde senti, na distância e no silêncio, sentires o teu reflexo em mim, depois e antes de ti – a chinchos abertos a fumegar a uva esmagada... vem de novo, diz que SIM!, que plantas em mim a vinha das minhas lágrimas, diárias e salgadas, e faz renascer a vida sobre o odor aromático a pôdre que bafeja em mim.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Hino

Não foi preciso dizermos adeus! Não haveria como, não haveria porquê, simplesmente não haveria. Não te perguntei porque foste: não haveria forma de o fazer, na mesma forma que foste; há coisas que não cabem nas perguntas – nem nas respostas, dirias tu; existem somente, fora desse horizonte, sendo pura e doloridamente, sendo universo adentro, cheias de vida... –. Nem me perguntaste porque fiquei, há permanências que só fazem sentido no silêncio. Mas aqui estou indo em ti, estando aí por aqui. Não foi preciso dizer adeus, porque o adeus não se diz, não se empresta, não se dá, nem se recebe: vive-se na carne, nos ossos e no fundo da alma – parece-me que morrer seja um pouco disso, seja um adeus de viver na carne, nos ossos e na alma. [Conforme passa o tempo e nos vamos adestrando nele parece-me que a sensação de incompletude se vai desenhado com mais furor, com maior nitidez, com maior dor] Mas é na vida, no viver que o adeus floresce como as flores na primavera: são os frutos que ali estão como prenúncio.