segunda-feira, 28 de maio de 2007

Luz hibernada

Acorda, ó eterna Penélope, acorda!
Levanta-te desse teu fardo
Rasga, no chão – o chão onde amaste – o tear que te amedronta;
Enfrenta o destino – as ruas de Lisboa, as escadas... –
Tece, outramente, o futuro e os desamores
Não te prendas ao horizonte, sê eternidade!
Vislumbra na madrugada – onde fomos correndo à chuva, como me lembro: o sol adormecido atrás das nuvens cinzentas, deixavam as gotas da chuva cair como lágrimas, como lágrimas... – a última estrela, a luz que hiberna...

Sentir muito, profunda, longa e calorosamente... sentir
– onde estão os beijos que te dei? – ó eterna Penélope,
Cria os teus movimentos, faz do teu suor – que queima no gesto, como sempre me dizias – a loucura na ponta do desejo;
És Penélope e Ulisses:
És a proximidade que provoca ainda mais saudade – que aumenta a dimensão da entrega do desejo, disse-to ao ouvido – um paradoxo de lonjura
Nos movimentos do tear.

«Vou explorar-te toda com a minha boca, levar-te à loucura», disseste
Ó Ulisses, mas a tua voz é uma luz que hiberna, à fome...
Eu que te disse – lembro bem desse dia – recebo-te
Em minhas mãos
E no abuso haverá loucura e desejo e sons de prazer e calor e vontade e beijos e saudade na proximidade.

Mas houve nada.
Houve ninguém na estrada
Houve ausência na espera
Houve degraus no descanso
Houve sol, quando deveria ter havido chuva!

Foi deserto, foi gelo, foi um rio que não sabia correr...

– a ilusão e a paixão, disseste-me entre um sorriso embasbacado do prazer tido, é como um padre que ama uma menina – E o dia rompeu, a aurora chegou para ti, com a partida de Ulisses, ó Penélope!

Redesenha o teu corpo
Lava a tua cara
Enxuga as tuas lágrimas
E com o cales nas tuas mãos
Colhe a luz que hiberna jamais.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Firmamento


[…]

Firmamento deste universo que
Envolto no estrelar
Ri-se destes pequeninos
Nós, aqui olhando
As alturas do
Nunca...

Dias depois
Esclarece que
Ser é olhar!

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Sol de Inverno

Esta cantiga não é para ninguém,
mas tão-somente para quem a puder entender.
Solrac


Sabe Deus que eu quis
Contigo ser feliz
Viver ao sol do teu olhar,
Mais terno.
Morto o teu desejo
Vivo o meu desejo
Primavera em flor
Ao sol de Inverno.

Sonhos que sonhei
Onde estão
Horas que vivi
Quem as tem
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém

Beijos que te dei
Onde estão
A quem foste dar
O que é meu
Vale mais não ter coração
Do que ter e não ter, como eu.

Eu em troca de nada
Dei tudo na vida
Bandeira vencida
Rasgada no chão,
Sou a data esquecida
A coisa perdida
Que vai a leilão.

Sonhos que sonhei
Onde estão
Horas que vivi
Quem as tem
De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém.
Vivo de saudades, amor
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de Inverno
Não tenho calor

De que serve ter coração
E não ter o amor de ninguém.
Vivo de saudades, amor
A vida perdeu fulgor,
Como o sol de Inverno
Não tenho calor.

Simone de Oliveira, Intimidades

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Ausência



«... nem sequer impossível. A verdade, como silêncio, existe apenas onde não estou. O silêncio existe por trás das palavras que se animam no meu interior, que se combatem, se destroem e que, nessa luta, abrem rasgões de sangue dentro de mim. Quando penso, o silêncio existe fora daquilo que penso. Quando paro de pensar e me fixo, por exemplo, nas ruínas de uma casa, há vento que agita as pedras abandonadas desse lugar, há vento que traz sons distantes e, então, o silêncio existe nos meus pensamentos. Intocado e intocável. Quando volto aos meus pensamentos, o silêncio regressa a essa casa morta. É também aí, nessa ausência de mim, que existe a verdade.»
J.L.P., Cemitério de Pianos

Qualquer coisa


Há qualquer coisa na realidade que me acusa, que me adverte, que do funda da existência eleva-se acima de si e abaixo de mim, envolvendo-me num manto terrível de dúvida e de olhar fundo, reversível ou intransigente, revelando escondendo um porvir disperso, estendido de lés-a-lés no horizonte, no lusco-fusco que mostra e esconde a sua claridade, deixando-me suspenso na antecipação – sabida e ignorada –, uma espécie de crueldade querida, amada, saboreada e regozijada no vómito de nenhures para este aqui, presente, indolente, premente de ser um porvir inacabado, sempre à janela daquele navio que está no cais e não se sabe no alto mar.


terça-feira, 22 de maio de 2007

Reflexão abusiva

Onde é que tudo foi morrendo?
Onde é que o começo foi prenúncio do fim?
Onde é que, afinal, o kairos deixou de ser, e deu lugar à fatalidade, ao irreversível, ao terrível «tem de ser»?

Esta manta de vivências, de experiências, de desejos e de inibições;
este bordado alinhavado à largura da existência;
este pavio que queima, apagando-se e acendendo-se continuamente;
de tudo isso ficará ao menos, na finalidade de tudo, uma baba como a do caracol que brilhe quando o sol nela descansar os seus raios?

Em cada momento da vida somos o vazio do que poderia ter sido cheio;
somos a imperfeição do que poderia ter sido perfeito;
somos os lábios onde deveria ter havido o beijo – e houve o Sul, sem mais nada;
somos a vida, quando é na morte que tudo se clarifica.

Damos passos, tomamos caminhos, seguimos desejos, apanhamos a chuva que cai das nuvens, enchemos o olhar com o sol da tarde, abundamos as narinas com o perfume da Primavera, besuntamos o corpo com as palavras de silêncio – e mesmo assim somos esse recipiente ora meio cheio ora meio vazio – e haverá diferença entre os momentos em que estamos meios cheios ou meios vazios?

Não continuamos a ser sempre o mesmo do mesmo na diferença dos dias – sendo a diferença os dias ou o mesmo?
Esta real ilusão que arrastamos, buscando nos momentos a vivência e a experiência;
a colher – pedintes! – a gota de orvalho que vai se formando, disformando e informando ao nosso olhar.

Somos este Medo que se espera na estrada do fim.

Somos o Terror do Medo sem fim.

Somos o sítio frágil do mundo que é Fim.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

A leveza do Embondeiro



A vida emerge sempre de qualquer pequeno mistério que a lança acima das nuvens pela chuva que foi chamada a cair.

Na leveza ou na brandura existe sempre uma simplicidade de rosto, de sentimentos, de temores e de sensibilidade que nos prende e abre para outras lonjuras...

- tu bem o sabes -

Foi nossa alma que chorou ali, lembraste?

Foi, também, ali que ela cresceu, entrelaçada, nos braços do Sul...

- ainda sentes? -

Amanhece num piscar de olhos

e na sombra da árvore Embondeiro - onde fomos morrendo -

já nem o fresco nos arrefece...

Nem mesmo a folha simples - aquela folha, recordas-te? - que cai

ou o fruto que nos galhos - ai!, nós e o galhos... - amadurece,

nem mesmo isso foi

o que "Nós" na Alma

perdura e, no todo de mim,

é leveza.

Névoa


Manto de realidade
Torcida no tempo fugaz
Na neblina que não passa nem se desfaz
Há movimentos, há tristezas, há gente
Há criaturas que crescem e outras que desaparecem
Umas que são, outras que não são
E o silvado selvagem
Não sabendo de fronteiras ou limites de partilhas
Calcorreia terra acima e adentro
Apoderando-se do meu e do teu
Fragmentando o que a lei talhou!
Firmes, hirtos, grandes, pequenos
Verdes ou esverdeados
Secos ou maduros
Ali não há gente
Não há humanidade nem crueldade nem sentimento
Ali há silêncio
Que ninguém governa
Que ninguém extingue
Que ninguém conhece.
Terra de ninguém, terra de desgraçados
De mãos carcomidas e de pele talhada
De olhos fundos e de face endurecida
De inocência cruel e de maldade frágil.
Gritos, gemidos, sons ou vozes
Barulho ou sinfonia
Um momento de afazeres, de parires e de gozo
De loucura aceite
Na teimosia do tempo de gota a gota.
De norte ou de sul
De figurais cardeais do não
De horizonte agrilhoado
De realidade suspenso
De nada.
Fim, antes de início
Sentir decepado
De raízes e de altura
De calafrios e de visões vazios
De torturas e melancolia
De outras aventuras e de lugares
De gente
De animais
De plantas
De verdura e de natureza
Espontânea manifestação
Ou fenómeno contorcido
Água barrenta!
A névoa calcorreia
Transcorre o lés
Onde tudo faz sentido
Onde tudo tem o seu túmulo
Onde tudo recolhe a cinza de ser
Bom ou mau
Alto ou baixo
Grande ou pequeno
Gordo ou magro
Certeiro ou desacertadoNa aventura do abraço da névoa!

Cede


Cede,
lentificada pelo tempo fustigado no pó das letras,
a imagem da memória de ti
recriada nos espaços que ocupo.

Penso que aqui não há nada
e é precisamente aí o lugar em que te encontro.
Julgo reconhecer todo o vazio que ocupas de mim e sei

- com a certeza de quem não crê –

que tu és o absoluto.

Pé ante pé
sigo os passos que deixaste no caminho
por onde eu não seguia, não seguia…

- eu sem seguir -
até te ver partir.

Silencio as dores no embate das pedras
feito terra
feita sangue
feita cinza.

E nada a restar
para além da imagem de ti,
agora no pó
já não nas letras.

Eu a escrever o que não soube dizer
e tudo a cair por dentro da terra
num gesto de quem não sabe segurar
num sopro de um vento que não sabe tocar.

Ontem a ser o hoje em que te deixei partir
e eu já não na espera,
talvez já não na espera,
mas na certeza de ter cessado o tempo inteiro de mim.

Devasto os lugares que ainda têm vida
no meu corpo
no corpo que estripaste na suavidade dos dedos frios
e remeto-me inteiro para o lugar em que termino.

Encontro-te na distância do meu reflexo.
Eu nada.
Reflexo da distância tua do encontro teu

- já não em mim.
Tu nada.

Há um vazio imenso
no espaço que vai de mim até ao lugar onde cessaste.
Eu nos passos do teu caminho feito agonia
a procurar-me na poeira.

Tu a gritares o silêncio contido.
Teus gestos na lâmina e o meu sangue,
o meu sangue,
a ser a certeza da tua existência.

domingo, 20 de maio de 2007

Retorno

A chuva chegou sem aviso; caiu sobre o mais acautelado tojo adormecido, refrescando a terra e lavando o sarro das marés quentes de um Verão que se pronuncia antecipadamente. Por mim, disse que sim, sem receio e deixei sair estas palavras balbuciantes:

Ó Prometeu livre e condenado
Onde o castigo é redenção naquela tarde
Onde o animal te devora, onde me vou sendo fígado e castigo
E animal à mistura.
Mas de todos, quem é o mais castigado?

Falamos do Prometeu, ficamos de olhos postos naquela liberdade e naquele fogo de pensamento e o esquecimento é grande para a pobre águia que todos os dias, no final da tarde, ao pôr-do-sol, querendo ou não, tem que o comer, devorar, para depois, numa espécie de loucura, voltar a crescer e a ser comido... até onde vai o castigo que devora?

Em que tarde a perdição foi encontro e onde somos Prometeu e Águia conjuntamente?

Quão grande castigo é este que se comete para ser furtado à possibilidade de haver possibilidade. Este poço, este fundo sem fundo, esta queda na qual vamos sendo isso, não tem retorno, não tem fim, não tem um termo, apenas cair, sempre, até não haver mais queda: na realidade, não existe fundo, ou piso de segurança, ou qualquer coisa que nos valha, somente a queda, sempre a cair e a aprendizagem com esse cair...


Caio e continuo: eis o que sou – uma queda sem retorno.

ETROM






















Encosto ao túmulo frio
O aquecido corpo da vida
No jazigo duro da morte
É onde arrefeço a moleza de viver.



Tumular pedra lisa de inscrição
De nome ou data
De um vestígio de vida
De uma vida de vestígios.



Jazigo podre, nauseabundo
Lugar apertado de fechado
De cheiros privado:
O que somos do que fica!



Dor de vida e da última gota
Engilhado de viver
De acertar o passo com a colheita,
Ceifado de olhos abertos.



Túmulo, jazigo: a ceifa
A paz de um campo lavrado
Onde a promessa se cumpre
De um destino acatado!



Estas é a hora, aqui como outrora, ora pois: que seja de uma vez, o lavrador e a ceifa, a estação que dá de si!

sábado, 19 de maio de 2007

Reflexo


O vazio de uma escada. Os degraus solitários. A ausência de luz. O ar pesado. Os pulmões com fumo. Uma semelhança intrínseca. Dias de sol. Horas de chuva. Gotas de lágrimas. Segundos demorados. Olhar perdido. Recordações recuperadas. Um vão de escada. Um reflexo. Um vazio de nada. Uma escada.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Procura




"Man has places in his heart which do not yet exist, and into them enters suffering in order that they may have existence”.

Sobre a manhã


A pedra da calçada que piso fica delapidada
E os percursos que faço, desfazem-se
Esfarelo entre as mãos o destino
É no pó que me revejo, é na cinza que ganho asas.

Os caminhos que trilho
São as desgraças ganhas em prémio
São os dias vazios e as horas sem tempo
Os caminhos que trilho

Para onde vou?
Chove na minha vida, como no inverno que me pariu
Chove na minha vida, as lágrimas que derramo no silencia,
Nos sorriso que dou, na mão que estendo,
No olhar que lanço, no toque que quero dar e é-me vedado...

Apetece chorar sobre a manhã
No canto da minha vida, na relva verde em que me deito
Apetece ser a manhã e jamais voltar,
Morrer ao início da tarde...

Mais do que a solidão é o vazio que consome, que esfarela na sua mó, a solidez do sendo; mais que a solidão é o vazio que arrebata matinas sem acordar; penso que poderei engloba-lo todo, mas sendo ele tão grande, serei eu quem perecerá no fim, como tem que ser... e quando for cadáver, frio, deixarei ao mar a minha herança, porque só ele tem fundo para o vazio que carrego.

Espiral


… e eis que o véu do templo sobre mim se rasga,
deixando transparecer a beleza apodrecida dos anos,
de um tempo que se vive inversamente para dentro,
sem colher da calçada o frio terno que ela emana.

… será que o destino, esse fogo cinza,
essa imensa altura que paira seca
se deixa apaziguar, algum momento,
apaziguar?!

… e eis que no passado das vidas enroladas,
uma foz falou demais em momento inoportuno
fazendo murchar aquilo que poderia ter sido
e sido grande, mas nem pequeno em forma foi!

… trágico, tremendo e fascinante:
o horizonte, que há na divisão dos céus,
é feito de chuva,
chuva?!

… e eis que o futuro, esse leque de gueixa,
incendeia a brasa já queimada
a madeira que se fundiu de arder.
quando o grande se tornou pequeno.

Expressão


Imagem tépida, endurecida
Olhar fechado, frio
Tábuas de moradia, estranho
Cantares perdidos, momentos
Mãos coladas, dor
Pé juntos, caminho
Ar podre, pulmões
Nome, um destino.

O Sul mostra a sua face pelo direito
As searas cantam a brisa
As vindimas prenhes
Uivam com as matilhas e alcateias.
Há tanto de vida, de sangue, de herança
Tanto há.

A custo se vê o que não há
A custo se sente que não há
A custo se pede o que não há
A custo se toca o que não está.

Um assunto resolvido
Uma espiga e um moinho
Uma lápide que nunca teve mão.

Cheiros laminados, cozidos e esfregados
Odores de coisas que nunca senti
Um vazio que não tem nome
Que não tem figura
Que não tem sentimento
Que não tem paz.

Dou-te a minha paz, paz que não tenho
Arranco de mim um bocado de ti
Para tu seres aí melhor que foste aqui
Em mim o que nunca soube que eras em ti.

Dou-te aquilo que me falta
O que não tenho
O que nunca tive
O que em mim será sempre ausência
Aquele lugar de expressão
Por preencher, por encher
Por ser.

Arranco de mim um perdão que não tenho
Porque não há culpa figurada
Porque não há sentimento sentido
Porque não há desejo e atracção.
Parado.

Lavro em mim essa realidade
Essa herança que te deixo levar
A enterrar

Abre os olhos ao menos uma vez
Olha em ti o que de mim há
Cheira e saboreia o que ficou indo
Canta, sem voz, aquilo que ficou no silêncio
Obra, com as mãos, os pés de caminhadas
Por encetar.

Diz ao menos que sim
Que há tempo quando não houve
Que há hora quando era findou
Que há qualquer coisa onde há nada.

Dou-te a minha voz
A minha palavra
Aquilo que sou
Para seres depois.

Reticências

E a história resolveu-se
Escreveu-se sem pena, sem tinta
Foi tomando forma e lugar
Foi lançando nas palavras por dizer
Qualquer coisa como coisa qualquer.

Enunciação,

representação,

manifestação,

frase,

locução,

palavra,

aspecto,

fisionomia,

vivacidade,

animação,

expressão:

feneceu.

Foi na vida que a seara se talhou, nesse campo lavrado, nessa vindima executada: uma seara que acusa o Outono. A corda tanto esticou que viu o seu termo, a ponta tão final que foi horizonte do princípio, daquele início onde o parir, gemido e sangrento, relatou a miséria de começar a viver nas entranhas para viver sem elas. Não há história, nem distância, não há realidade ou memória, não existe um traço que possa ficar, onde ficou, para poder contar, relatando, ao sol a espiga de trigo amadurecida, mais pela terra, do que pelo sol. Faço um convite à expressão, a esse movimento direccionado, a essa realidade visível, para poder ver aquilo que a memória não recorda como lugarejo, faço o convite.

23 de Agosto de 2006
Dia da Santa Rosa de Lima

Kairos

O tempo regressa, sentado nas escadas da velha cidade, onde a chuva tarda a chegar. Os degraus inclinados, gastos, inclinados e frios; os pés descalços e as horas mortas; a espera é uma trama, um jogo de saias baloiçando ao vento. Kairos: onde tudo foi morrendo.