
Há tempos obriguei-me a ir às compras; a aproveitar os saldos – nem devíamos ser tratados por clientes nas lojas, mas por saldadores: «ó senhor(a) saldador(a) faça o favor de estar à vontade…» – e foi impressionante que não havia loja, naquele centro comercial, que não anunciasse os seus descontos de 50% para cima e para baixo – algumas, talvez por olho no negócio, até colocam as coisas nos 70%: razão: liquidação total! pois, pois… uma razão para dizer que vão mandar os empregados para o desemprego, mas o facto é que, contentes, vamos imediatamente ajudar à festa – com todo o tipo de roupas de Verão.
Mas se há coisa na qual sou esquisito é na compra de roupa: nunca tiveram a sensação que visitam todas as «capelinhas» e não encontram nada?! Epá, é cá uma frustração – para mim é cansativo, detesto mesmo – e ainda há mais: experimenta-se roupa, de tudo um pouco e ao gosto de cada um; e a primeira ideia que nos vem à cabeça é: «mas que diabo! Quem foi a criatura inteligente que desenhou ou concebeu esta roupa?» ou ainda «não existe nenhuma peça que me fique bem!?»: de um lado, as melhores peças já voaram pelos saldodependentes – ou por aqueles que tiveram um tiro de sorte – por outro, partimos sempre do princípio que o nosso corpo tem uma tal forma que não há roupa que lhe fique bem – já pensaram como existem pessoas em quem qualquer peça de roupa fica bem!? Acho isto irritante e deveria ser inconstitucional – hoje em dia tudo o que não se aplica a todos ou favorece uns e não todos é inconstitucional, parece-me politicamente correcto – ! Por mim, encontrar qualquer coisa que me satisfaça nesses dois aspectos é cá um bico d’obra! – enfim, esses seres devem ter nascido de cu para a lua.
Pronto, mas lá consegui comprar uma camisola às riscas – pretas e castanhas – que ainda não usei junto ao meu grupo de amigos, talvez por ser demasiado ousada – e eles dirão, espantados, «quem, tu?!, foste tu que escolheste isso?! Não parece nada teu!», mas lá depois acrescentam «fica-te muito bem!» e eu, claro está, fico com o ego preenchido de que ter andado horas à procura, não foi em vão! – mas podem ter a certeza que vou usar. Uma das coisas que me incomoda solenemente nas camisolas que compro – e vejam lá que não compreendo a razão de ser disso – é a etiqueta que trazem; agora até trazem às duas e às três, todas juntas e enormes, quilométricas! Fazem-me cá uma comichão junto à pele que nem imaginam: quem é que foi a criatura, de deus ou do diabo, que coloca lá isso, com indicações que ninguém percebe e quando percebe, regra geral, nunca batem certo: ou falha o país onde foram feitas (será isso importante: se estiver com um bom preço, tenho as minhas dúvidas…); ou a que temperatura devem ser lavadas ou engomadas (regra geral: é tudo lá p’a dentro e fé em deus!); e já nem falo do tamanho: existem S que são M e M que são L; e XS e XXL que não compreendo quem é que possa, estética e saudavelmente, usar; acresce, ainda, o facto de não estarem na língua de Camões (será que as peças foram somente feitas para os civilizados «bretões» usar e que tudo o resto deveria andar nu?!) e com medidas que pouco ou em nada batem certo... –, para além do mais: ninguém, ou quase ninguém, fazer uso daquilo que lá é dito – sim, aprendemos com as nossas mães que esta e esta peça, devem ser lavadas conjuntamente; aquela e aqueloutra, separadamente; o mesmo se aplica para o engomar: acho que em vez das etiquetas, deveriam ser as mães que deveriam estar colocadas nas camisolas que compramos – com devido respeito – não acham? Seria bem mais prático e até na hora da compra, sempre lá dariam uma opinião. Comprei a camisola – que ainda não usei – e de um só golpe, com a tesoura, desfiz-me da etiqueta e até acho que a camisola cai-me ainda melhor.
Mas se há coisa na qual sou esquisito é na compra de roupa: nunca tiveram a sensação que visitam todas as «capelinhas» e não encontram nada?! Epá, é cá uma frustração – para mim é cansativo, detesto mesmo – e ainda há mais: experimenta-se roupa, de tudo um pouco e ao gosto de cada um; e a primeira ideia que nos vem à cabeça é: «mas que diabo! Quem foi a criatura inteligente que desenhou ou concebeu esta roupa?» ou ainda «não existe nenhuma peça que me fique bem!?»: de um lado, as melhores peças já voaram pelos saldodependentes – ou por aqueles que tiveram um tiro de sorte – por outro, partimos sempre do princípio que o nosso corpo tem uma tal forma que não há roupa que lhe fique bem – já pensaram como existem pessoas em quem qualquer peça de roupa fica bem!? Acho isto irritante e deveria ser inconstitucional – hoje em dia tudo o que não se aplica a todos ou favorece uns e não todos é inconstitucional, parece-me politicamente correcto – ! Por mim, encontrar qualquer coisa que me satisfaça nesses dois aspectos é cá um bico d’obra! – enfim, esses seres devem ter nascido de cu para a lua.
Pronto, mas lá consegui comprar uma camisola às riscas – pretas e castanhas – que ainda não usei junto ao meu grupo de amigos, talvez por ser demasiado ousada – e eles dirão, espantados, «quem, tu?!, foste tu que escolheste isso?! Não parece nada teu!», mas lá depois acrescentam «fica-te muito bem!» e eu, claro está, fico com o ego preenchido de que ter andado horas à procura, não foi em vão! – mas podem ter a certeza que vou usar. Uma das coisas que me incomoda solenemente nas camisolas que compro – e vejam lá que não compreendo a razão de ser disso – é a etiqueta que trazem; agora até trazem às duas e às três, todas juntas e enormes, quilométricas! Fazem-me cá uma comichão junto à pele que nem imaginam: quem é que foi a criatura, de deus ou do diabo, que coloca lá isso, com indicações que ninguém percebe e quando percebe, regra geral, nunca batem certo: ou falha o país onde foram feitas (será isso importante: se estiver com um bom preço, tenho as minhas dúvidas…); ou a que temperatura devem ser lavadas ou engomadas (regra geral: é tudo lá p’a dentro e fé em deus!); e já nem falo do tamanho: existem S que são M e M que são L; e XS e XXL que não compreendo quem é que possa, estética e saudavelmente, usar; acresce, ainda, o facto de não estarem na língua de Camões (será que as peças foram somente feitas para os civilizados «bretões» usar e que tudo o resto deveria andar nu?!) e com medidas que pouco ou em nada batem certo... –, para além do mais: ninguém, ou quase ninguém, fazer uso daquilo que lá é dito – sim, aprendemos com as nossas mães que esta e esta peça, devem ser lavadas conjuntamente; aquela e aqueloutra, separadamente; o mesmo se aplica para o engomar: acho que em vez das etiquetas, deveriam ser as mães que deveriam estar colocadas nas camisolas que compramos – com devido respeito – não acham? Seria bem mais prático e até na hora da compra, sempre lá dariam uma opinião. Comprei a camisola – que ainda não usei – e de um só golpe, com a tesoura, desfiz-me da etiqueta e até acho que a camisola cai-me ainda melhor.






Entalada no Canal ao sabor de um mar frio e de um vento gélido, garante de um beleza natural e artificial que enchem os olhos, é no horizonte que mato as saudades de ser ilhéu - não deste ilha, demasiado serena e burguesa, mas daqueloutra, rude, bruta, incivilizada. Mas a beleza nasce da sua utilidade, a natureza não lhe deu mais do que isso, o ser útil, uma espécie de pedaço de terra que vive vidas emprestadas, investidas por seres vindos de outras paragens e que sem ganharem raízes, vivem uma vida de espera, de dia de regresso, de expansão de emoções e de sensações onde a moral e a ética ficam paredes a dentro. Esta imagem comercial, elementar, tem a sua beleza de viver, de poder viver entre um ambiente multicultural, plural, egoísticamente, plural, onde a língua morre quando nasce, nos esgotos de uma linguagem que não se aprende, mas que se adquire em prol das necessidades primárias, das secundárias e de todas as outras que vão aparecendo. Mas esta ilha, berço do exílio de figura imponente, como Victor Hugo, não guarda uma cultura que lhe valha - morte antes de morrida, fria antes de esfriada - em cada canto vê-se o que não há ou somente o que há na beira do sexo, de horas perdidas, de sonhos sonhados, de bandeiras vencidas, de heróis mortos à beira e à praia mar. Não lhe devo nada, não me deu nada, tento tudo nela um pedaço de mim. E à luz daquele farol - que se diz o mais antigo e o primeiro que deu luz ao mar desta Europa - fica apenas o vento frio, o som das gaivotas, uma mulher bêbada que passeia um cão - talvez esperando qualquer coisa ou coisa alguma - ao sabor das críticas morais de quem passa, cuja felicidade se encontra no fundo de uma garrafa vazia. Há desejos de ser a garrafa, mas nunca a mulher, rasgada, consumida, desejada outrora pelos impulsos masculinos e femininos de foder, loucamente, um bocado de carne, dando eternidade na terra a um sonho porvir. Jersey... uma palavra em tantas bocas e línguas e culturas e costumes e morais e tudo diferente... esta Europa que nos escada na sua multiformidade, esquece-se da unidade que a sustenta, que tudo subsume e tudo produz diferentemente. A redução à unidade, donde nunca saímos, é onde teremos descanço, àquele átomo indiferenciadamente diferente, jamais divisível, é onde meu olhar descansou, sob o horizonte do mar de Jersey.