quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – Etiquetas


Há tempos obriguei-me a ir às compras; a aproveitar os saldos – nem devíamos ser tratados por clientes nas lojas, mas por saldadores: «ó senhor(a) saldador(a) faça o favor de estar à vontade…» – e foi impressionante que não havia loja, naquele centro comercial, que não anunciasse os seus descontos de 50% para cima e para baixo – algumas, talvez por olho no negócio, até colocam as coisas nos 70%: razão: liquidação total! pois, pois… uma razão para dizer que vão mandar os empregados para o desemprego, mas o facto é que, contentes, vamos imediatamente ajudar à festa – com todo o tipo de roupas de Verão.

Mas se há coisa na qual sou esquisito é na compra de roupa: nunca tiveram a sensação que visitam todas as «capelinhas» e não encontram nada?! Epá, é cá uma frustração – para mim é cansativo, detesto mesmo – e ainda há mais: experimenta-se roupa, de tudo um pouco e ao gosto de cada um; e a primeira ideia que nos vem à cabeça é: «mas que diabo! Quem foi a criatura inteligente que desenhou ou concebeu esta roupa?» ou ainda «não existe nenhuma peça que me fique bem!?»: de um lado, as melhores peças já voaram pelos saldodependentes – ou por aqueles que tiveram um tiro de sorte – por outro, partimos sempre do princípio que o nosso corpo tem uma tal forma que não há roupa que lhe fique bem – já pensaram como existem pessoas em quem qualquer peça de roupa fica bem!? Acho isto irritante e deveria ser inconstitucional – hoje em dia tudo o que não se aplica a todos ou favorece uns e não todos é inconstitucional, parece-me politicamente correcto – ! Por mim, encontrar qualquer coisa que me satisfaça nesses dois aspectos é cá um bico d’obra! – enfim, esses seres devem ter nascido de cu para a lua.

Pronto, mas lá consegui comprar uma camisola às riscas – pretas e castanhas – que ainda não usei junto ao meu grupo de amigos, talvez por ser demasiado ousada – e eles dirão, espantados, «quem, tu?!, foste tu que escolheste isso?! Não parece nada teu!», mas lá depois acrescentam «fica-te muito bem!» e eu, claro está, fico com o ego preenchido de que ter andado horas à procura, não foi em vão! – mas podem ter a certeza que vou usar. Uma das coisas que me incomoda solenemente nas camisolas que compro – e vejam lá que não compreendo a razão de ser disso – é a etiqueta que trazem; agora até trazem às duas e às três, todas juntas e enormes, quilométricas! Fazem-me cá uma comichão junto à pele que nem imaginam: quem é que foi a criatura, de deus ou do diabo, que coloca lá isso, com indicações que ninguém percebe e quando percebe, regra geral, nunca batem certo: ou falha o país onde foram feitas (será isso importante: se estiver com um bom preço, tenho as minhas dúvidas…); ou a que temperatura devem ser lavadas ou engomadas (regra geral: é tudo lá p’a dentro e fé em deus!); e já nem falo do tamanho: existem S que são M e M que são L; e XS e XXL que não compreendo quem é que possa, estética e saudavelmente, usar; acresce, ainda, o facto de não estarem na língua de Camões (será que as peças foram somente feitas para os civilizados «bretões» usar e que tudo o resto deveria andar nu?!) e com medidas que pouco ou em nada batem certo... –, para além do mais: ninguém, ou quase ninguém, fazer uso daquilo que lá é dito – sim, aprendemos com as nossas mães que esta e esta peça, devem ser lavadas conjuntamente; aquela e aqueloutra, separadamente; o mesmo se aplica para o engomar: acho que em vez das etiquetas, deveriam ser as mães que deveriam estar colocadas nas camisolas que compramos – com devido respeito – não acham? Seria bem mais prático e até na hora da compra, sempre lá dariam uma opinião. Comprei a camisola – que ainda não usei – e de um só golpe, com a tesoura, desfiz-me da etiqueta e até acho que a camisola cai-me ainda melhor.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – A miúda do metro


É rotineira a minha viagem matinal, tão rotineira que a faço diluído nas paisagens que vão passando, nos sons emitidos, nos cheiros evaporados – nem todos… alguns são intratáveis, mesmo para o olfacto narigudo –; saio de casa, fecho a porta – duas voltas, não vá o diabo tecer… mas fico sempre a pensar que em caso de incêndio ou de natural catástrofe ou de humana rebeldia, é mais difícil entrar… e às vezes estas dúvidas acompanha-me mentalmente, mas só por alguns metros – entro no elevador, marco o zero ou o menos um, depende por onde me apetece sair – sim, existem muitas maneiras para sair de casa, outras tantas para entrar; agora permanecer em casa como moradia, isso são outros tantos quilómetros… – e caminho em direcção à paragem de autocarro – mas tenho carro, não o levo para o trabalho: já experimentaram conduzir em Lisboa pela manhã? E conseguem sobreviver até ao trabalho? E conseguem sobreviver todos os dias? Ao menos no autocarro da carris, na carreira do costume, temos as caras habituais que somente conhecemos por alguns minutos, ora resmungonas, ora tristonhas, muitas diluídas em paisagens que são memória, uma ou outra sorridente, e, com sorte, um(a) gajo(a) a comer-nos literal e visualmente, fazendo uso da discrição ou abusivamente! Bom, um bom início de dia – uma corrida ligeira na entrada do metro e lá se passa o cartão magnético – que legalmente no dá passagem para entrar – e, ordeiramente, aguarda-se a chegada da «lombriga» mecânica, que fecha ruidosamente as portas. Na estação do campo grande entrou uma miúda – digo miúda porque era pequena e tinha cara de garota – a conduzir uma melhor cega – o que aliás já vem sendo costume no metro da grande e civilizada, democraticamente, cidade de Lisboa, capital de Portugal, um país membro da União Europeia – por entre os obstáculos da existência: pessoas mal-humoradas, sacos e sacolas colocados no chão, gentes e gentinhas a lerem em papel os sonhos irrealizados, porque sonhados; aquela miúda, frágil e ágil, ultrapassava e evitava os obstáculos todos, vaporizando na realidade uma beleza singela e pura, em gestos de candura e de vida que se alongava para a mulher que não vê. Através daquela mão que, fortemente, segurava na ausência de visão, tudo ganhava os contornos mínimos da forma e da figura em olhos onde a visão era distância. Não lhe soube do nome, nem para onde ia; soube-a ali, naquele momento, rompendo a minha monotonia; com gestos e movimentos; com um olhar que não me olhou, nem soube de mim ali, ausente; e desapareceu no turbilhão das gentes, loucas e desenfreada, na saída do Marquês, não sei para onde – e nem sei se ela o sabia também – mas foi com mais segurança e obstinação. Continuei. Eu aqui e a miúda além. Pareceu-me feliz.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – Desilusão «como se»


Derreto os sonhos no lanço de os alcançar. É ao rés-do-chão da ilusão que encontro a dura verdade, sozinha e esfarrapada; e vejo como a ilusão é um castelo de cartas feito sonho, feito manhã, feito esperança num talvez; e que a dura espera é uma cilada demorada, que mói silenciosa as pedras, gastas, da saudade porvir. Os olhos percorrem, abraçam e acariciam a realidade, mas é na irrealidade que sorvem e escamoteiam a sua força. Arranco da realidade as escamas exibidas e ostento a nudez – foi nessa hora que teu sangue escorreu entre as minhas mãos e minhas mãos foram a impotência e a incapacidade; no teu sorriso reconheci a fragilidade e a delicadeza; e teu sangue a esvair-se do teu corpo, teu sangue feito nómada, encetou um caminho sem regresso, decidido e obstinado. E a vida, essa, deu lugar ao estar morto em ti – diz ao menos que ainda estás aqui!!!, que a solidão não se tornou um descampado de isolamento sem ti!!! – e em ti eu morri, ali, nascituro, entalado no teu sexo. Ah... o limite, o termo... ah... já não ouço a tua voz, já não sinto o teu calor, já longe vai a suavidade do meu nome na tua boca; diz-me, se puderes, onde estás? Onde estás para me dizeres o que podes? Teu corpo nos meus braços – foram tantas a vezes, a transpiração, o desejo, a força, o calor... – é uma tundra de medos, de mudez e de silêncio. O chão onde jazes está coberto com os sonhos que, juntos, parimos e contigo esfumaram-se no ar como as folhas no Outuno. De pés descalços, gelados, feridos de lascas a sangrar, é na terra fria que te sinto – a terra onde tantas vezes violamos, sexualmente, o desejo à força de agarramo-nos «como se» – ausente, para sempre ausente, para sempre numa distância que não entendo, que não percebo, que me violenta, que me destrói, que me dilacera, que permanece «como se». Os sonhos... a desilusão... «como se»... Derreto os sonhos no lanço de os alcançar.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – Insatisfação


Experimentei no teu olhar o limite da minha existência. Nas tuas palavras, no que me foste sempre dizendo, em momentos sempre diferentes, em locais sempre oportunos ou inoportunos, em horas incertas, em ocasiões distintas; nas tuas palavras provei o sabor da eternidade, o enraizamento na existência, o sentimento de pertença, o cais da saudade no lanço conquistado. Foram nesses momentos, tal como agora, que a satisfação e a insatisfação cresceram juntas, filhas do mesmo gesto, do mesmo desejo, do mesmo acto sexual. A cada momento realizado, outro por realizar; a cada facto conquistado, um horizonte de possibilidades ainda por vencer. E o teu olhar, sempre certo, porque incerto, invadia-me nos lugares inacabados, nas sensações por cumprir, nos desejos por consumar, no sexo por ultimar, nas palavras infantes e inauditas; esse teu olhar que sabia das minhas moradas, das moradas minhas que eu desconhecia, que me sabia mais do que eu, no limite da minha insatisfação, foi acontecendo, foi tomando uma forma, uma figura desenhada que à força tentei descortinar, perceber, compreender, mas em vão. Parece que a cada esforço de aproximação, era a distância e a ausência que vencia; parece que a cada batalha vencida, era uma derrota que me cabia; parece que a cada conquista, era o alheio que se instalava. O que serei, quando for? No teu olhar experimento o limite da minha existência; experimento o morto, o morrer e a morte – enfim, esta frágil e sensual arte de viver. E tu continuas a olhar-me, a lançar na minha direcção esse mirar, essa admiração que espelha o universo todo inteiro – logo em mim – e eu, presente ausente de mim, sou um quinhão de termos bem definidos, uma promessa com o fim perpetuamente destinado. De onde me é dado que me olhes? E que me olhes como olhas? E que eu seja em ti o teu olhar? Que destino ou terrível liberdade originou tal ocaso previsivelmente imprevisto? Sob o véu do teu olhar, nada mais existe no Mundo, senão tu a olhares-me e eu a ser olhado por ti; nada mais existe no Tempo, senão tu aqui e eu frente a ti; nada mais existe no Espaço, senão dois corpos sendo um; nada mais existe senão a Existência, tesa e retesa, com cheiro a sémen e a rosmaninho.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Memórias de Óbidos - Mosteiro da Batalha


Sinto-me cansado; meus pequenos olhos não sustentam a percepção de tanta grandeza, de tanta imponência, de tanta arquitectura delineada – em curvas e contra curvas, colunas, fustes, capiteis e abóbadas em cruzaria, claustros em quadrilátero e arcos de alvenaria – de tão grande povo, dizem, este de ser português no louvor de uma grande Batalha e na Batalha sinto-me estrangeiro e apátrida.

Tanto louvor exterior de uma miséria interior, tanta opulência visível de uma pobreza invisível, tanta matéria com tão pouco espírito – nem o amor de Pedro e Inês, noutra geografia desenhada, atingiu tamanha façanha; nem as mortes nem a vitória de Aljubarrota adivinhavam tal destino petrificado, eternamente erguido, teso e reteso – a desafiar os céus –, deste Mosteiro. Ao menos, para quem o visita pode degustar-se com os Roma, os Sintos e os Calon (gypsies) – de berço indo-europeu – espalhados ao seu redor, a vender tudo o que corpo precisa e a alma anseia; regateie-se e com sorte é o Mosteiro que se hipoteca em troca de uma bijutaria – disseste que a fé é esta pose de andar em pé, erguido em humanidade, lembras-te?!, que ela é nómada… – que é de tal modo tão forasteira ao corpo que somente na lixeira encontra a sua moradia.

Talvez a Saudade seja o Mosteiro que nos falta, desenhada no Atlântico que nos banha e no Marão que nos envolve, no Alentejo que no inclina e no Algarve que no promove além deste aquém na raiz de ser português.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Memórias de Óbidos - Cabo Carvoeiro


Foi no cabo que me ergui em toda a minha altura de humanidade a ver o lanço da distância; numa ponta de Portugal vi o aquém que nos retém sempre nesta saudade que alimentamos, nas lágrimas que deixamos cair e na chuva que nos acompanha nos momentos de estar sozinho.


Olhei o mar, como quem olha a tristeza de um poço sem fundo; vi no horizonte o que nunca será atingido; pousei os meus pensamentos no azul, na brisa, no perfume a peixe grelhado da varina intemporal. E este mar imenso que anda dentro de nós – recordas-te de me dizer isto?! Sim, na naquela conversa que tivemos na praia, à noite, no Verão quente, onde trocamos beijos e sexo, onde me invadiste, violentamente, sem tocar; onde me foste morrendo, sem eu saber?! Soube tarde demais, o dia já tinha nascido, a aurora já há muito tinha passado e o sol te iluminou noutras portos de abrigo, onde eu não sou e tu és, onde tu és porque eu não sou jamais – deixa-nos com sabor a maresia.


Eis o Cabo Carvoeiro, neste Peniche bem português: quem quiser ver do que somos feitos, venha aqui, ore, de pé, frente ao divino mar, veja ao longe a Berlengas e na intimidade a Nau dos Corvos, alce as asas e saiba que sabe voar atlaticamente.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Memórias de Óbidos - Mosteiro de Alcobaça


Podre alma adormecida que não ascende às moradas que tem – é sombra, é tempo, é realidade, é momento atrás de momento, é loucura sempre coberta pelo nó das situações, estrangulado no osso da ocasião; triturado – aqui e além – da vida que a alma adormecida e adormecida se esfarrapa. As primaveras das manhas da alma deixaram de ser um aberto sorriso e ficaram mudas, ficaram onde não mais podiam ficar, naquele lugar de fronteira, ficaram na espera, no lanço do alcance, de um concreto idealizado jamais, onde tudo o que existe como sendo talvez se purifica, petrifica e apodrece com a candura não maculada; lá onde a alma adormece, onde o seu leito tem a vez mais do que o despertar, aí tudo se transforma na força negra de um anjo caído, cansado de voar e que, corajosamente, decepo as asas, honrando aquilo que, para sempre, seria este aqui; tubos canalizados, arranjados numa jactância de viver adoentado na eternidade, onde o sol da alma deixou de brilhar... tudo tem o seu tempo, a fugaz hora de adormecer, quando já não faz manhã, nem noite que salve uma alma podre. Aqui não encontrei fé, nem a procurei... senti o medo na alma pútrida... senti que a salvação, o outro mundo, a transcendência é feita de pecados!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Memórias de Jersey

Entalada no Canal ao sabor de um mar frio e de um vento gélido, garante de um beleza natural e artificial que enchem os olhos, é no horizonte que mato as saudades de ser ilhéu - não deste ilha, demasiado serena e burguesa, mas daqueloutra, rude, bruta, incivilizada. Mas a beleza nasce da sua utilidade, a natureza não lhe deu mais do que isso, o ser útil, uma espécie de pedaço de terra que vive vidas emprestadas, investidas por seres vindos de outras paragens e que sem ganharem raízes, vivem uma vida de espera, de dia de regresso, de expansão de emoções e de sensações onde a moral e a ética ficam paredes a dentro. Esta imagem comercial, elementar, tem a sua beleza de viver, de poder viver entre um ambiente multicultural, plural, egoísticamente, plural, onde a língua morre quando nasce, nos esgotos de uma linguagem que não se aprende, mas que se adquire em prol das necessidades primárias, das secundárias e de todas as outras que vão aparecendo. Mas esta ilha, berço do exílio de figura imponente, como Victor Hugo, não guarda uma cultura que lhe valha - morte antes de morrida, fria antes de esfriada - em cada canto vê-se o que não há ou somente o que há na beira do sexo, de horas perdidas, de sonhos sonhados, de bandeiras vencidas, de heróis mortos à beira e à praia mar. Não lhe devo nada, não me deu nada, tento tudo nela um pedaço de mim. E à luz daquele farol - que se diz o mais antigo e o primeiro que deu luz ao mar desta Europa - fica apenas o vento frio, o som das gaivotas, uma mulher bêbada que passeia um cão - talvez esperando qualquer coisa ou coisa alguma - ao sabor das críticas morais de quem passa, cuja felicidade se encontra no fundo de uma garrafa vazia. Há desejos de ser a garrafa, mas nunca a mulher, rasgada, consumida, desejada outrora pelos impulsos masculinos e femininos de foder, loucamente, um bocado de carne, dando eternidade na terra a um sonho porvir. Jersey... uma palavra em tantas bocas e línguas e culturas e costumes e morais e tudo diferente... esta Europa que nos escada na sua multiformidade, esquece-se da unidade que a sustenta, que tudo subsume e tudo produz diferentemente. A redução à unidade, donde nunca saímos, é onde teremos descanço, àquele átomo indiferenciadamente diferente, jamais divisível, é onde meu olhar descansou, sob o horizonte do mar de Jersey.