terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Não somos deste mundo


Foi de repente, de um só trago que o tempo se esfarelou em ti e as migalhas que ficaram para trás só dizem o silêncio sobre ti.


Escoou-se o tempo como a chuva que escorre dos telhados, g
ota a gota, e secou-se. E o que me lembro de ti afunila-se no momento em que houve a última gota, onde o teu último respiro suspirado – quando é que o teu corpo foi arrefecendo? – esquartejou definitivamente o que tinha que ser, não por seres de outro mundo, mas por seres humanamente deste, porque se fosses do outro, serias sempre, e sendo deste deixaste de ser como o sol que se põe ao meio dia.

Embarcaste na invernia polar – se pudéssemos ter falado, que me terias dito? Que silêncio eu guardaria para ti, quando as minhas palavras quisesses ouvir? – da jovialidade onde o jamais é de cetim.

Enterro desenfreadamente as minhas mãos na terra, desferindo golpes de sangue na minha carne enso
pada de dor: grito aos berros por ti, mas é a minha voz que não me responde e aos soluços engulo o muco escorrido da miséria que alongo nos dias do tempo – onde estás quando não estás? –.


Vai, não voltes, não olhes para trás, não sintas saudades nem leves recordações;

Vai, não sintas ausência nem falta nem afastamento nem escassez nem privação;

Vai, não voltes, não queiras querer voltar – disseste tantas vezes que sim... que havia no ir o impossível de ficar... que havia no não tudo o que sempre podia ser diferente... –

Vai, não voltes, porque és desde mundo e não doutro: quando deixares de ser no apodrecimento putrefacto nauseabundizante de ti é que eu poderei ser mais onde nunca fui de menos!