Foi de repente, de um só trago que o tempo se esfarelou em ti e as migalhas que ficaram para trás só dizem o silêncio sobre ti.
Escoou-se o tempo como a chuva que escorre dos telhados, gota a gota, e secou-se. E o que me lembro de ti afunila-se no momento em que houve a última gota, onde o teu último
respiro suspirado – quando é que o teu corpo foi arrefecendo? – esquartejou definitivamente o que tinha que ser, não por seres de outro mundo, mas por seres humanamente deste, porque se fosses do outro, serias sempre, e sendo deste deixaste de ser como o sol que se põe ao meio dia.Embarcaste na invernia polar – se pudéssemos ter falado, que me terias dito? Que silêncio eu guardaria para ti, quando as minhas palavras quisesses ouvir? – da jovialidade onde o jamais é de cetim.
Enterro desenfreadamente as minhas mãos na terra, desferindo golpes de sangue na minha carne ensopada de dor: grito aos berros por ti, mas é a minha voz que não me responde e aos soluços engulo o muco escorrido da miséria que alongo nos dias do tempo – onde estás quando não estás? –.
Vai, não voltes, não olhes para trás, não sintas saudades nem leves recordações;
Vai, não sintas ausência nem falta nem afastamento nem escassez nem privação;
Vai, não voltes, não queiras querer voltar – disseste tantas vezes que sim... que havia no ir o impossível de ficar... que havia no não tudo o que sempre podia ser diferente... –
Vai, não voltes, porque és desde mundo e não doutro: quando deixares de ser no apodrecimento putrefacto nauseabundizante de ti é que eu poderei ser mais onde nunca fui de menos!