quinta-feira, 19 de julho de 2007

pequena loucura

«Em Lisboa não morro, mas espero... em Lisboa não moro, mas espero... limoeiro, limão do mar... estou sozinha e tu não vens amor... assim sozinha espero por ti... com a noite a madrugada vem... a dizer que vens, que vens... direi que não, direi que não... p’ra quê?»

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Se...


Se eu fosse morto como morre o som depois de emitido; a voz depois de calada; o sorriso depois de dado; no banquete dado aos vermos; na escuridão da terra; num espaço apertado; entregando o corpo emprestado; descansando o pensamento alheio;
esticando-me em todo o comprimento. Se eu morto fosse haveria som, voz, sorriso, banquete, escuridão, espaço, entrega, descanso e distensão.

Upa, upa… que já falta pouco

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Tu Tens um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Cecília Meireles

terça-feira, 3 de julho de 2007

SuSpEnSo

Poderia ter sido a realidade, mas foi tudo, foi o suspenso, a calma, o descanso, o outrora feito inconsciente.

Poderia ter sido o fim - o meu reflexo - e foi uma visão do alto, uma visão da minha altura.

Poderia ter sido o começo, o foi meu sangue que se esvaiu, que sucumbiu na estranheza de uma realidade estranha.

Fui eu e mais ninguém, o espaço e o tempo, a razão e a sensação, a vida e a morte, conjuguei-as todas de uma só vez e foi demais, subi acima de mim, desci abaixo da minha altura, percorri de lés a lés o pavio aceso que me ergue e foi na ponte do fim que me esperei, onde não havia ponta.

Fui eu e mais ninguém, a solidão sozinha de só na comunhão com tudo de nadas.

Fui eu e mais ninguém, e poderia ter sido realidade e foi somente real.

Também eu sou um fim: vi-o, senti-o, pensei-o! Agora, estou destinado a vivê-lo.