terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Não somos deste mundo


Foi de repente, de um só trago que o tempo se esfarelou em ti e as migalhas que ficaram para trás só dizem o silêncio sobre ti.


Escoou-se o tempo como a chuva que escorre dos telhados, g
ota a gota, e secou-se. E o que me lembro de ti afunila-se no momento em que houve a última gota, onde o teu último respiro suspirado – quando é que o teu corpo foi arrefecendo? – esquartejou definitivamente o que tinha que ser, não por seres de outro mundo, mas por seres humanamente deste, porque se fosses do outro, serias sempre, e sendo deste deixaste de ser como o sol que se põe ao meio dia.

Embarcaste na invernia polar – se pudéssemos ter falado, que me terias dito? Que silêncio eu guardaria para ti, quando as minhas palavras quisesses ouvir? – da jovialidade onde o jamais é de cetim.

Enterro desenfreadamente as minhas mãos na terra, desferindo golpes de sangue na minha carne enso
pada de dor: grito aos berros por ti, mas é a minha voz que não me responde e aos soluços engulo o muco escorrido da miséria que alongo nos dias do tempo – onde estás quando não estás? –.


Vai, não voltes, não olhes para trás, não sintas saudades nem leves recordações;

Vai, não sintas ausência nem falta nem afastamento nem escassez nem privação;

Vai, não voltes, não queiras querer voltar – disseste tantas vezes que sim... que havia no ir o impossível de ficar... que havia no não tudo o que sempre podia ser diferente... –

Vai, não voltes, porque és desde mundo e não doutro: quando deixares de ser no apodrecimento putrefacto nauseabundizante de ti é que eu poderei ser mais onde nunca fui de menos!

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Tempestade


“E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros. E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.”

H. Murakami, Kafka à beira-mar



quinta-feira, 22 de maio de 2008

Caminho

«Esta é a estrada que me destrói e que me puxa. Única e última. Este caminho que não é estrada. Este céu que não traz o silêncio, mas que o grita quando o silêncio é insuportável. Penso: talvez eu já não seja este corpo que me tornei, talvez eu já não seja esta forma dentro deste corpo, talvez eu seja eu já morto só a sofrer, sem vontade, só à espera da morte que nunca chegará. E no entanto, nesta tarde insepulta que une e divide o mundo, atravesso qualquer coisa que sou e que conheço. [...] E o cansaço que me prende liberta-me na imposição de continuar.»
J.L. Peixoto, Nenhum Olhar

terça-feira, 13 de maio de 2008

Nascimento


De regresso às fragas, aos pinhais e aos calhaus;
às sebes abertas, às courelas vindimadas e aos açougues amortalhados;
às terras do centeio, às granjas e aos seixos;
aos picos, às covas e às cruzinhas.

De regresso, sem dúvida, à telúrica soca que me pariu, à maresia que me viu antes do tempo.

Foi nos pinhais que houve a primeira lufada de ar fresco, foi nos calhaus a primeira experiência da dureza do mundo, foi nas vossas faces que vi, antes de saber, que eu era mais do que isto e que vos vi além, que vos esperei na ponte do fim.

E nas tuas mãos, encarquilhadas e calejadas de rudeza, tive o toque, a suavidade, a delicadeza do ter sido parido.

Três voltas dadas, três décadas passadas, três personagens encetadas! Uns capítulos após outros foram sendo encerrados noutros novos abertos: sempre tive medo, mas a força atlântica foi sempre mais forte, foi sempre mais forte o traço de horizonte que em mim habitou, que em mim rasgou os mais obstinados penedos.

Hoje estou aqui: despido, usado, abusado, corrompido, talhado pelo tempo, mas ligado à raiz mais funda que me alimenta, intocada, intocável. Ouço, ainda, na longinquidade, a tua voz, o teu sorriso, o teu abraço forte e quente.

– onde estás, quando já não estás, depois de tudo, de tanto tempo, de tanta ausênciapresença? –

De regresso às fragas, aos pinhais e aos calhaus;
às sebes abertas, às courelas vindimadas e aos açougues amortalhados;
às terras do centeio, às granjas e aos seixos;
aos picos, às covas e às cruzinhas;

De regresso e aqui estou: sem certezas e cumulado de dúvidas!

Até onde for, será!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Criatura – a brutal incapacidade

Os caminhos que percorremos são só nossos e nossos somente. As vidas que vivemos dentro da vida, os sentimentos que temos, dentro dos sentimentos, os olhares que lançamos dentro da possibilidade de ver, os toques que oferecemos nos traços desenhados de um outro ser; será tudo isso orquestrado? A náusea de um nauseado... Hoje foste tu que viste ao meu encontro, que do longínquo deserto deste-me de beber um pouco da tua água que sempre me acalmou, que no silêncio, na ausência de palavras sempre me soubeste melhor do que eu. Nunca me pediste nada, nunca me exigiste qualquer coisa, fosse o que fosse; e a tua presença sempre presente, em símbolo de contradição, foi sempre mais longe do que eu poderia querer, do que eu mereceria. Viste sempre o meu lado negro, profundo e abissal, sempre soubeste dele; e nele sempre conseguiste ver oásis e flores e vida; sempre apontaste a luz, o horizonte, o trilho no deserto que coloca ordem no desordenado. E parece que tudo se resumiu certamente à minha brutal incapacidade de voltar a confiar e a dar (onde fui morrendo?). Ainda, parece-me, faltar tempo para me reencontrar na certeza das decisões depois de tudo o que vivi, sofri, vi, senti e consenti: eis a criatura, nua, crua, brutal – quem quiser vê-la, quem quiser lê-la, que arranque os olhos e cheio de fé a veja! Perigosa? Certamente que sim! A alma também adoece, também vive ferida, também sofre com os rasgões dos golpes desferidos: as dores nos ossos da alma sararão as feridas abertas e enxugarão as lágrimas derramadas, quando o nascer do sol for oportuno, novamente; entretanto, o caminhar no deserto far-se-á na solidão.

Triste manhã...


Há horas de angústia... sempre me perguntei «que haveríamos de ser, quando fôssemos?» e parece que a pergunta sempre conteve, largamente, a resposta. Triste manhã que a mim mesmo me pareço, um erro, um sonho deixado no caminho ido. Cavo em mim o nojo e a repugnância, como o lavrador numa seara estéril, estrangeira à semente. Lavro sulcos duros do complicado que sou, do que parece que veio a ser em mim, ausente de realidade, de espanto, de destinos. Onde e para onde vou, se em tudo o que toco corrompe-se? Triste manhã... mim, frente a mim mesmo, uma decomposição a decorrer durante a manhã da vida. Grito!, aflito e sem ar: estou sem fôlego, mas enquanto vida houver nas gotas de sangue, das quais sou indigno, ainda hei-de andar na verticalidade que outrora fui e da qual tenho saudades.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Lembrança de memória...

Vinda não sei de onde, não sei como, não sei porquê, a tua memória – só tua e tão longínqua que já vai: onde estás, como és agora? – preenche-me o vazio de recordar.
Lembro-me das tuas mãos – talhadas pela urdidura do sol e da terra, pelas duras pedras lavradas na tua esperança, pelo suor, gota a gota, do teu corpo no mar azul – e do teu rosto – tão presente, essas linhas desenhadas, cada uma delas cheias de estórias e de mágoas, de lendas e de contos, de tantos outroras mortos antes de nascer – recordo-me de ti em mim e de mim em ti com tal clareza, maior do que aquela que tenho de mim mesmo aqui e agora.
Foi cedo demais, foi o tempo, a oportunidade, foi!
E foste-me em ti decepado, como se decepa a videira após vindimada – mas havia ainda tanto para dar, tanto onde colher... – por aquela terrível mão que não sente nem pressente.
Quando volto às águas do Atlântico, quando me embrenho nas raízes soltas que plantaste e no precipício, quando percorro os caminhos e as veredas que, com um sorriso, me ensinaste, quando é aí que te me lembro: e sinto o cheio a vindimas, às colheitas de Setembro – sabes, aquele mês, onde tudo cheira a vida, onde senti, na distância e no silêncio, sentires o teu reflexo em mim, depois e antes de ti – a chinchos abertos a fumegar a uva esmagada... vem de novo, diz que SIM!, que plantas em mim a vinha das minhas lágrimas, diárias e salgadas, e faz renascer a vida sobre o odor aromático a pôdre que bafeja em mim.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Hino

Não foi preciso dizermos adeus! Não haveria como, não haveria porquê, simplesmente não haveria. Não te perguntei porque foste: não haveria forma de o fazer, na mesma forma que foste; há coisas que não cabem nas perguntas – nem nas respostas, dirias tu; existem somente, fora desse horizonte, sendo pura e doloridamente, sendo universo adentro, cheias de vida... –. Nem me perguntaste porque fiquei, há permanências que só fazem sentido no silêncio. Mas aqui estou indo em ti, estando aí por aqui. Não foi preciso dizer adeus, porque o adeus não se diz, não se empresta, não se dá, nem se recebe: vive-se na carne, nos ossos e no fundo da alma – parece-me que morrer seja um pouco disso, seja um adeus de viver na carne, nos ossos e na alma. [Conforme passa o tempo e nos vamos adestrando nele parece-me que a sensação de incompletude se vai desenhado com mais furor, com maior nitidez, com maior dor] Mas é na vida, no viver que o adeus floresce como as flores na primavera: são os frutos que ali estão como prenúncio.

segunda-feira, 10 de março de 2008

§ ... -> ! <- ... §

Há criaturas em que a própria existência bafeja nojo de nelas existir! Criaturinhas encarquilhadas, pseudo-mundividências projectadas, vómitos psitacísticos, energias negras de ocacidade! O prenúncio de abrirem a boca é como se nos abeirassemos de imediato de uma lixeira: tudo pôdre em vestidos de cetim! Minha humana raíz, banhada nas águas salgadas do Atlântico, nascida do penedo telúrico e vulcânico, torce-se e contorce-se só na presente de tais acontecimentos! Nunca gostei de grandes indumentárias no encontro com o outro e nas grandes ocasiões celebrativas sempre tive gosto de aparecer a nu. Criaturinhas de gentinhas onde a vida brada, sufocada, por uma clareira de lucidez no meio do emaranhado: felizes são as pedras que ao menos cumprem a sua finalidade, o seu sentido; e mais bem cheiroso é o monte de estrume, ao céu aberto, que produz aquilo que é; as criaturinhas são somente o abaixo de reles...!

quinta-feira, 6 de março de 2008

Ausência


A ausência é o ponto de encontro; é o nada onde tudo acontece; é o deixar de ser um mundo, para ser um outro. Os laços que tecemos ao longo da vida, a vida que se tece ao longo dos laços, tem a fragilidade de uma aurora: só a capta quem estiver atento, só a sabe quem for oportuno, só a tem quem a compreende.


Esse tão grande, largo, imenso, vasto ponto de encontro toma sempre a forma de encruzilhada, onde tudo se decide, onde tudo se cinde, onde, ultimamente, tudo se parte em bocados, por que só em bocados é que a vida toma um sentido definitivo.


A ausência é a maneira do longe fazer-se presente, do querido tornar-se intrínseco, do outro ser do meu sangue e da minha carne e partilharmos as mesmas dores e sentimentos e pressentimentos, tudo à mistura nos ossos encarquilhados de existir.


Por que é que tudo acontece na ausência, no nada? Quando vou de metro uma estação leva sempre à outra - pelo menos realmente... - mas a que ficou sediado no tempo lá atrás, [h]à espera de outro comboio e de outras gentes - apressadas, esquecidas, felizes ou sofridas - vai ganhando novas cores, novos cheiros, novos sons: uma vida que nasce onde o vazio nadificante parecia trinunfar.


A ausência é o ponto de encontro; é o nada onde tudo acontece, é onde tudo vai morrendo, onde sou morto. Onde sou morto de ti e de mim, de tudo e de nada, vivendo novamente, outramente o mesmo na alteridade que pensaria jamais existir em mim.

segunda-feira, 3 de março de 2008

] NaDa [

... foi de repente, sem tempo de resposta, sem lugar a resposta - lembras-te do momento, da figura desenhada da minha face, da lágrima que correu na solidão e no silêncio, que caiu sem som, sem dizer que existia, que teve lugar, que foi aquela vez e não outra? - onde a pergunta ficou suspensa no horizonte do teu olhar... se me recordo! todo o meu corpo é uma questão, interrogada, no tempo, no espaço que me separa de ti, aqui, neste vão onde até o eco se ausentou - as tuas mãos salgadas no meu cabelo, a percorrerem a minha face, o teu beijo que foi longe demais, porque nunca foi dado, sempre promessa de comprimento, de acontecer, naquele penedo, onde a ilha aprendeu a ser mar... - ... foi de repente, sem tempo de resposta, sem lugar a resposta que dei por mim morto de ti.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Tempo

Parece que o tempo passou desde a última vez que por cá passei; não sei se foi por mim que ele passou ou se, pelo contrário, fui eu que passei por ele; ou, ainda, se andamos completamente desencontrados...

tudo precisa de espaço, não tanto de tempo, para poder ganhar forma, para assumir-se numa figura desenhada de liberdade ou de desespero. Eu, por mim, que andei sempre lado a lado às birras com a liberdade, vivo enraizado, atormentado com as gotas caídas do tempo.

o tempo é uma espécie de tumba caida de podrião onde se vive, somente quando é tarde de mais é que sentimos o cheiro que tem! - parece ser um bom repto para futuros rabiscos por aqui... -