sábado, 29 de setembro de 2007

Prenhe de morte – um equívoco

A morte é um horizonte apetecível e de preferência para relacionar com a esperança.

Nada mais absurdo! Não existe relação entre uma coisa e outra: a morte diz respeito a um acto autêntico e a esperança a acções efectivas. Querer relacionar uma coisa com a outra é como querer ver uma relação causal entre a existência do copo e a existência de líquidos.

A impossibilidade de relacionar a esperança com a morte não é uma posição angustiante, nem deve sê-lo, mas tão-somente o reconhecimento que esse acto autêntico dispõe-se autenticamente enquanto absoluto. Falar de vestígios deste acto autêntico nas acções efectivas é outra coisa bem diferente: o absoluto da morte é tão puramente autêntico (note-se que mais universal que a própria razão, senão mesmo O universal por excelência) que é o fundamento – no sentido de Ab-Grund, o sem fundo, o abissal... – das acções efectivas.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Prenhe de morte

Quem nos emprenhou de morte? Esta gravidez que se alonga pelo tempo, da cavidade uterina ao jazigo, inunda todos os gestos feitos, a fazer e por fazer. Não existe momento que não seja a expressão do morrer e do estar morto. E somos nos momentos, nas suas junções, nas suas síncopes e nos seus acontecimentos.

A morte é a criatividade da vida, na sua fecundidade, na sua ocorrência e na sua esterilidade. A morte é, igualmente, a corrupção da vida, no seu vazio, na sua possibilidade, na sua realidade.

Chegado o momento do parir, somos parturientes e paridos. E de um só rasgo, ensanguentados e cansados, das dores abençoadas de parir, lançamos na vida o suspiro de tarefa cumprida: o morto vem à luz do dia.

Quando for morto, o sentido emergirá no vazio, no nada, em algo.
Quando for morto serei o meu final.
Quando for morto.

[Somos a morte dentro de nós e somos prenhes de morte!]

Sempre.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

One day... One room...


Among all possibilities, the daily life it’s bond to a real possibility. The horizon of action is this precisely moment and there is no odder. If we postulate the possibility of consequences of our actions, it is so possible to postulate the necessity of eternity: or the actions do not have consequences beyond the moment, or they have and the possibility of eternity is necessary. The heart of the reality is this moment; and is this moment that eternized can be, nothing more, and nothing less. Life is a chamber of fire where the ice is burning forever more. One day… one room… I and nothing more: the others do not exist as I exist in that day and in that room. The possibility of me is the nothingness off others and vice-versa: forever and ever incommunicableness.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

[sem título]

A vida... tanta busca por sentido, por objectivos, por realização... quando tudo se dá e acontece nos mais pequenos e insignificantes momentos, nas migalhas, na poeira, nos grãos que vão caindo do cesto que vem da vinha vindimada.

E o homem julga-se pelas suas acções e não pelas suas memórias. Mas não há memórias sem as acções que as sustentam – ou pelo menos pensamos que seja assim... e é no meio da vida que perdemos o fio à meada: longe está o início e o fim é incerto, uma caravela que no alto mar já não vê terra e o horizonte é sempre agora e ainda não...

Onde e quando é que tudo foi morrendo?

sábado, 15 de setembro de 2007

Intrigas - a sombra e o seu objecto


As escadas não são escadas; os degraus não são degraus; as pedras da calçada não são pedras da calçada; o corrimão não é corrimão; as árvores não são árvores, nem os galhos, galhos das mesmas árvores; nem as folhas a folhagem que as veste; os prédios com portas e janelas não são prédios com portas e janelas; os escritos nas paredes não são escritos nas paredes e nem as paredes são paredes; o ar que se respira e os barulhos e os cheiros não são nem ar, nem respiração, nem barulhos, nem cheiros; as conversas, as palavras, as vírgulas estranguladas nas conversas e os risos e o silêncio, não são conversas, não são palavras, não são vírgulas estranguladas, nem conversas, nem risos, nem o silêncio são; e a gente que anda, que corre, que para e que olha, não são gente, não andam, não correm, não param, nem olham, porque não são; o cheiro a café, a bica molhada nos lábios, o gosto queimado de uma italiana, o borbulhar de um cerveja numa mesa pálida, com a tolha suja, com vestígios do antes, não há cheiro a café, nem a bica molhada nos lábios, nem gosto queimado da italiana, porque não é, nem o borbulhar da frio cerveja – porque nem frio nem quente, nem qualquer sensação de frio ou de quente, nem morno ou coisa semelhante – tudo não é, tudo desfragmentado, tudo diluído, tudo feito não, feito estranho, feito distensão.

Suspensão na dianteira de mim. A sombra e o seu objecto tornam-se um.

P.S. – Dizem as más-línguas da minha aldeia que no seio de uma família mui nobre, reunidos à mesa, na hora da ceia - entre as colheradas de sopa –, levantou-se o filho mais novo e, de um só trago, disse: «Sou gay!», ao que a família respondeu: «Sirva-se do segundo prato! O seu mal é fome...»: a sombra e o seu objecto tornam-se um.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Intrigas – Sobre o acto de dizer


O que dizemos é uma tentação. E esta tentação rotineira, quase mecânica, julga poder, no acto, dizer tudo o que pode ser dito. Nem tudo pode ser dito, nem nada pode ser omitido, ora, alguma coisa é da ordem do verbalizável. E é esta «alguma coisa» que nos trama a todos.

De alguns anos a esta parte tenho defendido – contra algumas posições irredutíveis odeomainas – que há nessa «qualquer coisa» de verbalizável um tanto de incomunicabilidade. O que é da ordem do incomunicável vem à luz do dia acompanhado do verbo «ser» e o que é verbalizável com o verbo «agir». O busílis da questão encontra-se na impossibilidade de separar os dois verbos; de não poderem acontecer em tempos e espaços diferentes. Se assim é, parece-me, que o acto de dizer é sempre um acto kairológico em que o tempo de ser e a acção de acontecer congregam-se de tal modo que são autenticamente, para além da sua efectividade. Parece-me, ainda, que essa maravilha só acontece porque a razão é criativa e porque o tempo não é estático. Mas isto não elide o problema odeomiana: tudo é verbalizável! Aproveito, por isso, para questionar: o que seremos quando formos?

Se o dizer é uma tentação, ser é um acto erótico! A pessoa individual – continuamente em extinção e extintamente a continuar – é a exauração de ser erótica e tal como o erotismo carece de qualquer coisa, a pessoa extingue-se na consumação. Essa característica erótica do ser da pessoa é o que atrai, do passado, o «sido» e, do futuro, o «será»: ser eroticamente é ser horizonte, é ser o centro, duplamente potencial, do que no presente é o «sendo».

Ora, a conclusão é consequente: o acto de dizer é uma tentação erótica. É a tentativa de exprimir sensualmente o que é racional (no sentido da razão criativa que anteriormente falamos). E tal como o erotismo é um acto temporal distensivo, assim também o dizer é uma distensão no tempo. São precisos vários momentos, momentos distintos até, para que o próprio dizer seja efectivamente dito. Aqui sim há a comunicabilidade mais do que a verbalização; há mais a realização do ser, do que do agir. E sou tentadoramente erótico no «outro». E este «outro» concretiza-se na pluralidade, na diferença de todos os próximos que passam por nós, que nos atravessam, que nos rasgam na carne e que acalentam a nossa alma – que vem do futuro e nos abrem novas perspectivas ou do passado e curam as nossas feridas do presente. Parece-me que este modo de dizer e de ser edifica, sustentavelmente, a possibilidade, através dos «outros», da pessoa. Por isso, tudo o que «te-vos» digo é eroticamente tentador.


P.S. – Este texto não é ingénuo, mas, de igual modo, também não é completamente consciente.