
A ausência é o ponto de encontro; é o nada onde tudo acontece; é o deixar de ser um mundo, para ser um outro. Os laços que tecemos ao longo da vida, a vida que se tece ao longo dos laços, tem a fragilidade de uma aurora: só a capta quem estiver atento, só a sabe quem for oportuno, só a tem quem a compreende.
Esse tão grande, largo, imenso, vasto ponto de encontro toma sempre a forma de encruzilhada, onde tudo se decide, onde tudo se cinde, onde, ultimamente, tudo se parte em bocados, por que só em bocados é que a vida toma um sentido definitivo.
A ausência é a maneira do longe fazer-se presente, do querido tornar-se intrínseco, do outro ser do meu sangue e da minha carne e partilharmos as mesmas dores e sentimentos e pressentimentos, tudo à mistura nos ossos encarquilhados de existir.
Por que é que tudo acontece na ausência, no nada? Quando vou de metro uma estação leva sempre à outra - pelo menos realmente... - mas a que ficou sediado no tempo lá atrás, [h]à espera de outro comboio e de outras gentes - apressadas, esquecidas, felizes ou sofridas - vai ganhando novas cores, novos cheiros, novos sons: uma vida que nasce onde o vazio nadificante parecia trinunfar.
A ausência é o ponto de encontro; é o nada onde tudo acontece, é onde tudo vai morrendo, onde sou morto. Onde sou morto de ti e de mim, de tudo e de nada, vivendo novamente, outramente o mesmo na alteridade que pensaria jamais existir em mim.
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