Vinda não sei de onde, não sei como, não sei porquê, a tua memória – só tua e tão longínqua que já vai: onde estás, como és agora? – preenche-me o vazio de recordar. Lembro-me das tuas mãos – talhadas pela urdidura do sol e da terra, pelas duras pedras lavradas na tua esperança, pelo suor, gota a gota, do teu corpo no mar azul – e do teu rosto – tão presente, essas linhas desenhadas, cada uma delas cheias de estórias e de mágoas, de lendas e de contos, de tantos outroras mortos antes de nascer – recordo-me de ti em mim e de mim em ti com tal clareza, maior do que aquela que tenho de mim mesmo aqui e agora.
Foi cedo demais, foi o tempo, a oportunidade, foi!
E foste-me em ti decepado, como se decepa a videira após vindimada – mas havia ainda tanto para dar, tanto onde colher... – por aquela terrível mão que não sente nem pressente.
Quando volto às águas do Atlântico, quando me embrenho nas raízes soltas que plantaste e no precipício, quando percorro os caminhos e as veredas que, com um sorriso, me ensinaste, quando é aí que te me lembro: e sinto o cheio a vindimas, às colheitas de Setembro – sabes, aquele mês, onde tudo cheira a vida, onde senti, na distância e no silêncio, sentires o teu reflexo em mim, depois e antes de ti – a chinchos abertos a fumegar a uva esmagada... vem de novo, diz que SIM!, que plantas em mim a vinha das minhas lágrimas, diárias e salgadas, e faz renascer a vida sobre o odor aromático a pôdre que bafeja em mim.
Sem comentários:
Enviar um comentário