sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Intrigas – Sobre o acto de dizer


O que dizemos é uma tentação. E esta tentação rotineira, quase mecânica, julga poder, no acto, dizer tudo o que pode ser dito. Nem tudo pode ser dito, nem nada pode ser omitido, ora, alguma coisa é da ordem do verbalizável. E é esta «alguma coisa» que nos trama a todos.

De alguns anos a esta parte tenho defendido – contra algumas posições irredutíveis odeomainas – que há nessa «qualquer coisa» de verbalizável um tanto de incomunicabilidade. O que é da ordem do incomunicável vem à luz do dia acompanhado do verbo «ser» e o que é verbalizável com o verbo «agir». O busílis da questão encontra-se na impossibilidade de separar os dois verbos; de não poderem acontecer em tempos e espaços diferentes. Se assim é, parece-me, que o acto de dizer é sempre um acto kairológico em que o tempo de ser e a acção de acontecer congregam-se de tal modo que são autenticamente, para além da sua efectividade. Parece-me, ainda, que essa maravilha só acontece porque a razão é criativa e porque o tempo não é estático. Mas isto não elide o problema odeomiana: tudo é verbalizável! Aproveito, por isso, para questionar: o que seremos quando formos?

Se o dizer é uma tentação, ser é um acto erótico! A pessoa individual – continuamente em extinção e extintamente a continuar – é a exauração de ser erótica e tal como o erotismo carece de qualquer coisa, a pessoa extingue-se na consumação. Essa característica erótica do ser da pessoa é o que atrai, do passado, o «sido» e, do futuro, o «será»: ser eroticamente é ser horizonte, é ser o centro, duplamente potencial, do que no presente é o «sendo».

Ora, a conclusão é consequente: o acto de dizer é uma tentação erótica. É a tentativa de exprimir sensualmente o que é racional (no sentido da razão criativa que anteriormente falamos). E tal como o erotismo é um acto temporal distensivo, assim também o dizer é uma distensão no tempo. São precisos vários momentos, momentos distintos até, para que o próprio dizer seja efectivamente dito. Aqui sim há a comunicabilidade mais do que a verbalização; há mais a realização do ser, do que do agir. E sou tentadoramente erótico no «outro». E este «outro» concretiza-se na pluralidade, na diferença de todos os próximos que passam por nós, que nos atravessam, que nos rasgam na carne e que acalentam a nossa alma – que vem do futuro e nos abrem novas perspectivas ou do passado e curam as nossas feridas do presente. Parece-me que este modo de dizer e de ser edifica, sustentavelmente, a possibilidade, através dos «outros», da pessoa. Por isso, tudo o que «te-vos» digo é eroticamente tentador.


P.S. – Este texto não é ingénuo, mas, de igual modo, também não é completamente consciente.

1 comentário:

rivka disse...

E onde fica o limite entre o não ingénuo e o não consciente?? Um acto de erotismo, portanto, a demorar-se na permanência de um não-inteiramente-dito que se aproxima de um quase-dizer para chegar ao dito, e aí ser lugar de concretização e de realização...humm...é melhor eu ler o texto outra vez!! ;-))