
As escadas não são escadas; os degraus não são degraus; as pedras da calçada não são pedras da calçada; o corrimão não é corrimão; as árvores não são árvores, nem os galhos, galhos das mesmas árvores; nem as folhas a folhagem que as veste; os prédios com portas e janelas não são prédios com portas e janelas; os escritos nas paredes não são escritos nas paredes e nem as paredes são paredes; o ar que se respira e os barulhos e os cheiros não são nem ar, nem respiração, nem barulhos, nem cheiros; as conversas, as palavras, as vírgulas estranguladas nas conversas e os risos e o silêncio, não são conversas, não são palavras, não são vírgulas estranguladas, nem conversas, nem risos, nem o silêncio são; e a gente que anda, que corre, que para e que olha, não são gente, não andam, não correm, não param, nem olham, porque não são; o cheiro a café, a bica molhada nos lábios, o gosto queimado de uma italiana, o borbulhar de um cerveja numa mesa pálida, com a tolha suja, com vestígios do antes, não há cheiro a café, nem a bica molhada nos lábios, nem gosto queimado da italiana, porque não é, nem o borbulhar da frio cerveja – porque nem frio nem quente, nem qualquer sensação de frio ou de quente, nem morno ou coisa semelhante – tudo não é, tudo desfragmentado, tudo diluído, tudo feito não, feito estranho, feito distensão.
Suspensão na dianteira de mim. A sombra e o seu objecto tornam-se um.
Suspensão na dianteira de mim. A sombra e o seu objecto tornam-se um.
P.S. – Dizem as más-línguas da minha aldeia que no seio de uma família mui nobre, reunidos à mesa, na hora da ceia - entre as colheradas de sopa –, levantou-se o filho mais novo e, de um só trago, disse: «Sou gay!», ao que a família respondeu: «Sirva-se do segundo prato! O seu mal é fome...»: a sombra e o seu objecto tornam-se um.
1 comentário:
Ah!! que cena magnanime esta!! E que segundo prato para apaziguar tal fome!! Venha fartura de comida que a fome é, certamente, muita...Venha o segundo e o terceiro prato a (des)indicar os objectos. Pois, dexai então a sombra, na suspensão, ser una com o seu objecto. Magnifico! Absolutamente magnifico!
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