segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Caderno de Apontamento – Ilha Terceira: Angra do Heroísmo

Dirijo-me à janela do meu quarto de Hotel, abro-a e é o mar que me visita – não o mar feroz e agreste, indomável e violento da minha terra, onde me deixaste a morrer, recordo-me como se fosse amanhã – e o céu cinzento sobre o mar azul, o banho de espuma na costa e na areia negra são os degraus de uma alma que se sabe descansar.

As ruas estreitas e largas, com nomes conhecidos e outros desconhecidos, estórias e histórias que elas contam; o som das vozes e do comércio, a lota do peixe fresco e dos carros na calçada, são imagens de adormecer, sob uma chuva ténue que cai sobre o meu pesado rosto de viver.

Um jardim cantoneiro à cidade, com árvores e plantas e tantas coisas com nome: sentei-me junto a uma magnólia roxa. Procurei descansar ao sabor dos cheiros e do vento que soprava entre o descanso da chuva. Tenho a terra das ilhas entranhada na minha alma. Sou um ilhéu com o tamanho do mundo. Não tenho pontas nem oceanos, não sou de penínsulas nem de continentes: sou uma ilha e o universo é o mar que me banha – foram as tuas palavras, junto ao calhau, quando a morte te me visitou, na presença minha, a tua ausência foi pó das estrelas, onde fiquei, foi onde a tua ausência fez-se notar; rasgaste-me de lágrimas, lancetaste a minha alma, fizeste meu sangue jorrar como uma cascata a teus pés; onde tudo foi morrendo, foi meu corpo que se dissipou; onde tudo foi o que quiseste, fui eu que fui imensidão: ao teu colo, o meu sono de descanso foi planície; regressa de novo, novamente, onde não pode jamais haver retorno; onde o tempo passa, tudo é precipícios abissais de quedas sem fim.

Angra do Heroísmo: o atlântico como casa e a terra como refúgio. Ali vi o mar e a terra, vi o verde e o azul. Ali senti de novo a ilha. Ali fui ver a seara da morte: e estava viçosa!

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