domingo, 3 de junho de 2007

vEm devagar


Vem devagar,
sorrateiramente,
como quem não quer nada,
vem...

– aconchega-me nos teus braços,
lascas de lâminas de ternura –

e não digas por que é que vens,
vem somente,
sem razão,
sem liberdade,
sem escolha,
sem desejo...

– e dilacera-me o ventre
com o punhal da tua existência,
trucida a minha voz,
teu silêncio,
na tua ausência sentida –

vem impregnado de lucidez,
cega-me os olhos
e vazar-me a pupila do olhar

– seca-me a seiva da vida,
de um só golpe,
lento, demorado, pachorrento,
seca-me...
e não olhes para trás,
não!
Não olhes,
não vejas,
não queiras,
não! –

vem, este naco de carne,
putrefacto,
podre,
nauseabundo,
e regurgita o que podia ter sido
nado incriado.

– vem comer a morte que te sacia,
vem... –

1 comentário:

rivka disse...

Não haverá tanto a sobrar dos restos? ainda que o cheiro, ainda que a carne putrefacta, ainda que a alma moribunda, ainda que o corpo vagabundo, ainda que o destino envenenado, ainda que a morte certa, ainda que a despaixão amante, ainda que o tempo acutilante, ainda que a agonia lugar de existência. ainda assim...vem devagar.