quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – A miúda do metro


É rotineira a minha viagem matinal, tão rotineira que a faço diluído nas paisagens que vão passando, nos sons emitidos, nos cheiros evaporados – nem todos… alguns são intratáveis, mesmo para o olfacto narigudo –; saio de casa, fecho a porta – duas voltas, não vá o diabo tecer… mas fico sempre a pensar que em caso de incêndio ou de natural catástrofe ou de humana rebeldia, é mais difícil entrar… e às vezes estas dúvidas acompanha-me mentalmente, mas só por alguns metros – entro no elevador, marco o zero ou o menos um, depende por onde me apetece sair – sim, existem muitas maneiras para sair de casa, outras tantas para entrar; agora permanecer em casa como moradia, isso são outros tantos quilómetros… – e caminho em direcção à paragem de autocarro – mas tenho carro, não o levo para o trabalho: já experimentaram conduzir em Lisboa pela manhã? E conseguem sobreviver até ao trabalho? E conseguem sobreviver todos os dias? Ao menos no autocarro da carris, na carreira do costume, temos as caras habituais que somente conhecemos por alguns minutos, ora resmungonas, ora tristonhas, muitas diluídas em paisagens que são memória, uma ou outra sorridente, e, com sorte, um(a) gajo(a) a comer-nos literal e visualmente, fazendo uso da discrição ou abusivamente! Bom, um bom início de dia – uma corrida ligeira na entrada do metro e lá se passa o cartão magnético – que legalmente no dá passagem para entrar – e, ordeiramente, aguarda-se a chegada da «lombriga» mecânica, que fecha ruidosamente as portas. Na estação do campo grande entrou uma miúda – digo miúda porque era pequena e tinha cara de garota – a conduzir uma melhor cega – o que aliás já vem sendo costume no metro da grande e civilizada, democraticamente, cidade de Lisboa, capital de Portugal, um país membro da União Europeia – por entre os obstáculos da existência: pessoas mal-humoradas, sacos e sacolas colocados no chão, gentes e gentinhas a lerem em papel os sonhos irrealizados, porque sonhados; aquela miúda, frágil e ágil, ultrapassava e evitava os obstáculos todos, vaporizando na realidade uma beleza singela e pura, em gestos de candura e de vida que se alongava para a mulher que não vê. Através daquela mão que, fortemente, segurava na ausência de visão, tudo ganhava os contornos mínimos da forma e da figura em olhos onde a visão era distância. Não lhe soube do nome, nem para onde ia; soube-a ali, naquele momento, rompendo a minha monotonia; com gestos e movimentos; com um olhar que não me olhou, nem soube de mim ali, ausente; e desapareceu no turbilhão das gentes, loucas e desenfreada, na saída do Marquês, não sei para onde – e nem sei se ela o sabia também – mas foi com mais segurança e obstinação. Continuei. Eu aqui e a miúda além. Pareceu-me feliz.

1 comentário:

rivka disse...

uma crónica??!! um bom ritmo para contar o mundo. Continua!! Queremos mais!