sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Memórias de Óbidos - Mosteiro da Batalha


Sinto-me cansado; meus pequenos olhos não sustentam a percepção de tanta grandeza, de tanta imponência, de tanta arquitectura delineada – em curvas e contra curvas, colunas, fustes, capiteis e abóbadas em cruzaria, claustros em quadrilátero e arcos de alvenaria – de tão grande povo, dizem, este de ser português no louvor de uma grande Batalha e na Batalha sinto-me estrangeiro e apátrida.

Tanto louvor exterior de uma miséria interior, tanta opulência visível de uma pobreza invisível, tanta matéria com tão pouco espírito – nem o amor de Pedro e Inês, noutra geografia desenhada, atingiu tamanha façanha; nem as mortes nem a vitória de Aljubarrota adivinhavam tal destino petrificado, eternamente erguido, teso e reteso – a desafiar os céus –, deste Mosteiro. Ao menos, para quem o visita pode degustar-se com os Roma, os Sintos e os Calon (gypsies) – de berço indo-europeu – espalhados ao seu redor, a vender tudo o que corpo precisa e a alma anseia; regateie-se e com sorte é o Mosteiro que se hipoteca em troca de uma bijutaria – disseste que a fé é esta pose de andar em pé, erguido em humanidade, lembras-te?!, que ela é nómada… – que é de tal modo tão forasteira ao corpo que somente na lixeira encontra a sua moradia.

Talvez a Saudade seja o Mosteiro que nos falta, desenhada no Atlântico que nos banha e no Marão que nos envolve, no Alentejo que no inclina e no Algarve que no promove além deste aquém na raiz de ser português.

1 comentário:

rivka disse...

Na grandeza guarda-se o que de pequeno se fará ser mais. E talvez a saudade também seja lugar da grandez onde o que é pequeno a fez ser.