sábado, 10 de novembro de 2007

Caderno de Apontamentos – Bruxelas (Bélgica)

O aeroporto estava vazio e, por um momento, parecia que o mundo inteiro cabia ali, naquela imensidão em altura e largura. Bruxelas, 01h00m. Caminho sem pressas entre escadas que sobem e que descem para colher a bagagem. E quando a colho, puxo um peso existencial – parece que também somos o que levamos, tantas vezes me disseste, num olhar, num sorriso que fazia transparecer o tempo na tua face e que a face do tempo te me levou – até à porta do aeroporto e aproveito para fumar um cigarro, após várias horas de salubre avião e aeroporto, sem nicotina no sangue. Táxis parados. Negros. Parados. Gente. Diferente. Fisionomias. Países. Culturas. A existência. Tiro um cigarro, acendo-o e a primeira bafada tanto sabe bem como arde infinitamente, inflamando a alma. Táxis negros. Escuros. Lindos. Trajectos e outras direcções – a vida que se expande em ser vista, por tanto lado e de tanto lado.
[Estou sentado num café. À minha frente tenho um canteiro com uma árvore verde plantada. Uma árvore desenhada ao cuidado destas gentes do Norte. E o natural, livre, bruto e espontâneo não cresce senão à socapa. Não admira a ideia de Deus ex machina não tenha sido portuguesa. A nossa desorganização é o que de mais próximo e natural se tem com a natureza. Em Bruxelas tenho sempre o desejo de me tornar num animal sanguinário, uma espécie de predador das savanas africanas, sem fronteiras, sem moralidade, somente animal. Mas a minha animalidade afrouxa-se perante o que é a expressão bestial – de besta ou de magnifico... – desta gente que também é portuguesa, falante do francês, tal como os portugueses são belgas!].
Entro num táxi: Bon nuit, monsieur ! Bon nuit ! e após uma troca de palavras, lá estou nas estradas bruxelenses. Chove. Tempo magnífico. Estradas largas. Frio. Chove. A única coisa estranha é o taxista: nunca vi tantos traços contínuos pisados e transpostos, mas afinal o homem tem alguma razão, eles foram feitos para isso mesmo: serem violados. Cheguei ao Hotel. Cansado.

1 comentário:

rivka disse...

Da próxima vez, vou contigo!
Lindo. Belissimas imagens. Belissimo retrato de sentimentos.