sexta-feira, 8 de junho de 2007

Olhar pesado

Respiração tirada à queima-roupa.
A cabeça sustenta o mundo, compacto, denso, quente, azul.
O corpo são léguas de lâminas apontadas para dentro, afiadas, cortantes, pontiagudas, verdes.
Violado, corrompido, forçado, invadido: o mar.
Sangue, desventrado ao amanhecer da vida, sangue.
E veio a noite e que noite esta...
De lés a lés o corpo era uma chama dolorida que vomitava calor,
Um vulcão faminto, furioso, que cuspe, a cima e abaixo da minha altura, o que sou por detrás do que pareço.

Agónicas enxurradas, ora em fumo – os pulmões – ora em lava – a garganta – e o meu corpo, como caravela – ora expondo a pompa aos céus, ora sendo embalado na goelas de Posídon – ia vendo as esperanças paradas!

Mas não há agonia que salve a vida que somos no sangue que derramamos!... – ah, Prometeu, porquê?! –

Insatisfeito, insaciado, descontente, irado...
Cospe do fundo, do negro, do vazio, do nada, da solidão a preto e branco,
O Cerberus
Demónio do poço,
Monstruoso cão de divisíveis cabeças
E cobras ao redor do pescoço.

Esperto, astuto, lâminamente astuto,

Infestou, quimericamente, o meu pensamento, a minha alma, o meu avesso – dura investida! –...

Alastrou, na Atlântida, do meu corpo, dos meus ossos, da minha carne, dos meus olhos – grito, grito, grito!... e quando mais grito, mais aflito! –...

Dominou, hora a hora, onde o tempo foi ausente e a noite sem fim;
Dominou, hora a hora, onde a eternidade amamentou lágrimas secas, estéreis;
Dominou, hora a hora, onde o corpo alucinou-se outramente inventado;
Dominou, hora a hora, onde a alma, liberta, viu-se acorrentada;
Dominou, hora a hora, entre a loucura sustentada e o vómito produzido.

Amanheceu...
Nem Posídon, nem Cerberus, nem Quimera, nem Atlântida... – amanheceu –
Esventrado, torturado, prazenteiramente, trucidado: eu,
apenas eu, no silêncio de quatro paredes brancas – minhas mudas testemunhas –,
apenas eu, na imensidão da geografia – meu Sul –,
apenas eu...
sim!
eu e tive medo de mim,
porque ainda vivo e sinal de repetição!

1 comentário:

rivka disse...

Delirio de consciência. ConsciÊncia do delirio.
Estado febril revelador do que está na obscuridade do não falado.
A viagem tem sido longa...