Entalada no Canal ao sabor de um mar frio e de um vento gélido, garante de um beleza natural e artificial que enchem os olhos, é no horizonte que mato as saudades de ser ilhéu - não deste ilha, demasiado serena e burguesa, mas daqueloutra, rude, bruta, incivilizada. Mas a beleza nasce da sua utilidade, a natureza não lhe deu mais do que isso, o ser útil, uma espécie de pedaço de terra que vive vidas emprestadas, investidas por seres vindos de outras paragens e que sem ganharem raízes, vivem uma vida de espera, de dia de regresso, de expansão de emoções e de sensações onde a moral e a ética ficam paredes a dentro. Esta imagem comercial, elementar, tem a sua beleza de viver, de poder viver entre um ambiente multicultural, plural, egoísticamente, plural, onde a língua morre quando nasce, nos esgotos de uma linguagem que não se aprende, mas que se adquire em prol das necessidades primárias, das secundárias e de todas as outras que vão aparecendo. Mas esta ilha, berço do exílio de figura imponente, como Victor Hugo, não guarda uma cultura que lhe valha - morte antes de morrida, fria antes de esfriada - em cada canto vê-se o que não há ou somente o que há na beira do sexo, de horas perdidas, de sonhos sonhados, de bandeiras vencidas, de heróis mortos à beira e à praia mar. Não lhe devo nada, não me deu nada, tento tudo nela um pedaço de mim. E à luz daquele farol - que se diz o mais antigo e o primeiro que deu luz ao mar desta Europa - fica apenas o vento frio, o som das gaivotas, uma mulher bêbada que passeia um cão - talvez esperando qualquer coisa ou coisa alguma - ao sabor das críticas morais de quem passa, cuja felicidade se encontra no fundo de uma garrafa vazia. Há desejos de ser a garrafa, mas nunca a mulher, rasgada, consumida, desejada outrora pelos impulsos masculinos e femininos de foder, loucamente, um bocado de carne, dando eternidade na terra a um sonho porvir. Jersey... uma palavra em tantas bocas e línguas e culturas e costumes e morais e tudo diferente... esta Europa que nos escada na sua multiformidade, esquece-se da unidade que a sustenta, que tudo subsume e tudo produz diferentemente. A redução à unidade, donde nunca saímos, é onde teremos descanço, àquele átomo indiferenciadamente diferente, jamais divisível, é onde meu olhar descansou, sob o horizonte do mar de Jersey.terça-feira, 7 de agosto de 2007
Memórias de Jersey
Entalada no Canal ao sabor de um mar frio e de um vento gélido, garante de um beleza natural e artificial que enchem os olhos, é no horizonte que mato as saudades de ser ilhéu - não deste ilha, demasiado serena e burguesa, mas daqueloutra, rude, bruta, incivilizada. Mas a beleza nasce da sua utilidade, a natureza não lhe deu mais do que isso, o ser útil, uma espécie de pedaço de terra que vive vidas emprestadas, investidas por seres vindos de outras paragens e que sem ganharem raízes, vivem uma vida de espera, de dia de regresso, de expansão de emoções e de sensações onde a moral e a ética ficam paredes a dentro. Esta imagem comercial, elementar, tem a sua beleza de viver, de poder viver entre um ambiente multicultural, plural, egoísticamente, plural, onde a língua morre quando nasce, nos esgotos de uma linguagem que não se aprende, mas que se adquire em prol das necessidades primárias, das secundárias e de todas as outras que vão aparecendo. Mas esta ilha, berço do exílio de figura imponente, como Victor Hugo, não guarda uma cultura que lhe valha - morte antes de morrida, fria antes de esfriada - em cada canto vê-se o que não há ou somente o que há na beira do sexo, de horas perdidas, de sonhos sonhados, de bandeiras vencidas, de heróis mortos à beira e à praia mar. Não lhe devo nada, não me deu nada, tento tudo nela um pedaço de mim. E à luz daquele farol - que se diz o mais antigo e o primeiro que deu luz ao mar desta Europa - fica apenas o vento frio, o som das gaivotas, uma mulher bêbada que passeia um cão - talvez esperando qualquer coisa ou coisa alguma - ao sabor das críticas morais de quem passa, cuja felicidade se encontra no fundo de uma garrafa vazia. Há desejos de ser a garrafa, mas nunca a mulher, rasgada, consumida, desejada outrora pelos impulsos masculinos e femininos de foder, loucamente, um bocado de carne, dando eternidade na terra a um sonho porvir. Jersey... uma palavra em tantas bocas e línguas e culturas e costumes e morais e tudo diferente... esta Europa que nos escada na sua multiformidade, esquece-se da unidade que a sustenta, que tudo subsume e tudo produz diferentemente. A redução à unidade, donde nunca saímos, é onde teremos descanço, àquele átomo indiferenciadamente diferente, jamais divisível, é onde meu olhar descansou, sob o horizonte do mar de Jersey.
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1 comentário:
Um retrato mais cheio que quaçquer fotografia. Tera estranha essa em que pousaste as asas. Lugar de incomesurável distanciamento de um destino com(n)sentido.
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