terça-feira, 28 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – Desilusão «como se»


Derreto os sonhos no lanço de os alcançar. É ao rés-do-chão da ilusão que encontro a dura verdade, sozinha e esfarrapada; e vejo como a ilusão é um castelo de cartas feito sonho, feito manhã, feito esperança num talvez; e que a dura espera é uma cilada demorada, que mói silenciosa as pedras, gastas, da saudade porvir. Os olhos percorrem, abraçam e acariciam a realidade, mas é na irrealidade que sorvem e escamoteiam a sua força. Arranco da realidade as escamas exibidas e ostento a nudez – foi nessa hora que teu sangue escorreu entre as minhas mãos e minhas mãos foram a impotência e a incapacidade; no teu sorriso reconheci a fragilidade e a delicadeza; e teu sangue a esvair-se do teu corpo, teu sangue feito nómada, encetou um caminho sem regresso, decidido e obstinado. E a vida, essa, deu lugar ao estar morto em ti – diz ao menos que ainda estás aqui!!!, que a solidão não se tornou um descampado de isolamento sem ti!!! – e em ti eu morri, ali, nascituro, entalado no teu sexo. Ah... o limite, o termo... ah... já não ouço a tua voz, já não sinto o teu calor, já longe vai a suavidade do meu nome na tua boca; diz-me, se puderes, onde estás? Onde estás para me dizeres o que podes? Teu corpo nos meus braços – foram tantas a vezes, a transpiração, o desejo, a força, o calor... – é uma tundra de medos, de mudez e de silêncio. O chão onde jazes está coberto com os sonhos que, juntos, parimos e contigo esfumaram-se no ar como as folhas no Outuno. De pés descalços, gelados, feridos de lascas a sangrar, é na terra fria que te sinto – a terra onde tantas vezes violamos, sexualmente, o desejo à força de agarramo-nos «como se» – ausente, para sempre ausente, para sempre numa distância que não entendo, que não percebo, que me violenta, que me destrói, que me dilacera, que permanece «como se». Os sonhos... a desilusão... «como se»... Derreto os sonhos no lanço de os alcançar.

1 comentário:

rivka disse...

como se...como se ainda estivesses no lugar que é teu e que ocupas como se...como se a verdade fosse o que vem debaixo dessas escamas onde o teu sangue correu como se...como se eu não esquecesse nunca o que foi o teu odor que era pele minha, o teu corpo que era alma minha, o medo que era respirar meu como se...como se este chão onde teu corpo cessa seu lugar no meu fosse o meu sexo a rasgar como se...como se o sonho não parasse nunca como se...como se o sonho não chegasse a chegar como se...como se derretesse...nas minhas mãos.