segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Sinais de Lisboa – Insatisfação


Experimentei no teu olhar o limite da minha existência. Nas tuas palavras, no que me foste sempre dizendo, em momentos sempre diferentes, em locais sempre oportunos ou inoportunos, em horas incertas, em ocasiões distintas; nas tuas palavras provei o sabor da eternidade, o enraizamento na existência, o sentimento de pertença, o cais da saudade no lanço conquistado. Foram nesses momentos, tal como agora, que a satisfação e a insatisfação cresceram juntas, filhas do mesmo gesto, do mesmo desejo, do mesmo acto sexual. A cada momento realizado, outro por realizar; a cada facto conquistado, um horizonte de possibilidades ainda por vencer. E o teu olhar, sempre certo, porque incerto, invadia-me nos lugares inacabados, nas sensações por cumprir, nos desejos por consumar, no sexo por ultimar, nas palavras infantes e inauditas; esse teu olhar que sabia das minhas moradas, das moradas minhas que eu desconhecia, que me sabia mais do que eu, no limite da minha insatisfação, foi acontecendo, foi tomando uma forma, uma figura desenhada que à força tentei descortinar, perceber, compreender, mas em vão. Parece que a cada esforço de aproximação, era a distância e a ausência que vencia; parece que a cada batalha vencida, era uma derrota que me cabia; parece que a cada conquista, era o alheio que se instalava. O que serei, quando for? No teu olhar experimento o limite da minha existência; experimento o morto, o morrer e a morte – enfim, esta frágil e sensual arte de viver. E tu continuas a olhar-me, a lançar na minha direcção esse mirar, essa admiração que espelha o universo todo inteiro – logo em mim – e eu, presente ausente de mim, sou um quinhão de termos bem definidos, uma promessa com o fim perpetuamente destinado. De onde me é dado que me olhes? E que me olhes como olhas? E que eu seja em ti o teu olhar? Que destino ou terrível liberdade originou tal ocaso previsivelmente imprevisto? Sob o véu do teu olhar, nada mais existe no Mundo, senão tu a olhares-me e eu a ser olhado por ti; nada mais existe no Tempo, senão tu aqui e eu frente a ti; nada mais existe no Espaço, senão dois corpos sendo um; nada mais existe senão a Existência, tesa e retesa, com cheiro a sémen e a rosmaninho.

1 comentário:

rivka disse...

Insatisfação. Lugar onde o ir e o chegar entram em rota de colisão. "No teu olhar experimento o limite da minha existência" Na minha existência a experiência do teu limite. E a insatisfação de ter tido o que foi querer e não mais poder ter tido que o querer ter mais. A rota de colisão. O reflexo de ti em mim. O olhar de ti a ser eu. Lugar nenhum. Lugar de insatisfação. Lugar de ser quando for.