terça-feira, 13 de maio de 2008

Nascimento


De regresso às fragas, aos pinhais e aos calhaus;
às sebes abertas, às courelas vindimadas e aos açougues amortalhados;
às terras do centeio, às granjas e aos seixos;
aos picos, às covas e às cruzinhas.

De regresso, sem dúvida, à telúrica soca que me pariu, à maresia que me viu antes do tempo.

Foi nos pinhais que houve a primeira lufada de ar fresco, foi nos calhaus a primeira experiência da dureza do mundo, foi nas vossas faces que vi, antes de saber, que eu era mais do que isto e que vos vi além, que vos esperei na ponte do fim.

E nas tuas mãos, encarquilhadas e calejadas de rudeza, tive o toque, a suavidade, a delicadeza do ter sido parido.

Três voltas dadas, três décadas passadas, três personagens encetadas! Uns capítulos após outros foram sendo encerrados noutros novos abertos: sempre tive medo, mas a força atlântica foi sempre mais forte, foi sempre mais forte o traço de horizonte que em mim habitou, que em mim rasgou os mais obstinados penedos.

Hoje estou aqui: despido, usado, abusado, corrompido, talhado pelo tempo, mas ligado à raiz mais funda que me alimenta, intocada, intocável. Ouço, ainda, na longinquidade, a tua voz, o teu sorriso, o teu abraço forte e quente.

– onde estás, quando já não estás, depois de tudo, de tanto tempo, de tanta ausênciapresença? –

De regresso às fragas, aos pinhais e aos calhaus;
às sebes abertas, às courelas vindimadas e aos açougues amortalhados;
às terras do centeio, às granjas e aos seixos;
aos picos, às covas e às cruzinhas;

De regresso e aqui estou: sem certezas e cumulado de dúvidas!

Até onde for, será!

1 comentário:

AFSC disse...

Que sejas sempre bem vindo e que as décadas já vividas se multipliquem e cheias de felicidade.

Um forte abraço.