segunda-feira, 21 de maio de 2007

Cede


Cede,
lentificada pelo tempo fustigado no pó das letras,
a imagem da memória de ti
recriada nos espaços que ocupo.

Penso que aqui não há nada
e é precisamente aí o lugar em que te encontro.
Julgo reconhecer todo o vazio que ocupas de mim e sei

- com a certeza de quem não crê –

que tu és o absoluto.

Pé ante pé
sigo os passos que deixaste no caminho
por onde eu não seguia, não seguia…

- eu sem seguir -
até te ver partir.

Silencio as dores no embate das pedras
feito terra
feita sangue
feita cinza.

E nada a restar
para além da imagem de ti,
agora no pó
já não nas letras.

Eu a escrever o que não soube dizer
e tudo a cair por dentro da terra
num gesto de quem não sabe segurar
num sopro de um vento que não sabe tocar.

Ontem a ser o hoje em que te deixei partir
e eu já não na espera,
talvez já não na espera,
mas na certeza de ter cessado o tempo inteiro de mim.

Devasto os lugares que ainda têm vida
no meu corpo
no corpo que estripaste na suavidade dos dedos frios
e remeto-me inteiro para o lugar em que termino.

Encontro-te na distância do meu reflexo.
Eu nada.
Reflexo da distância tua do encontro teu

- já não em mim.
Tu nada.

Há um vazio imenso
no espaço que vai de mim até ao lugar onde cessaste.
Eu nos passos do teu caminho feito agonia
a procurar-me na poeira.

Tu a gritares o silêncio contido.
Teus gestos na lâmina e o meu sangue,
o meu sangue,
a ser a certeza da tua existência.

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