domingo, 20 de maio de 2007

Retorno

A chuva chegou sem aviso; caiu sobre o mais acautelado tojo adormecido, refrescando a terra e lavando o sarro das marés quentes de um Verão que se pronuncia antecipadamente. Por mim, disse que sim, sem receio e deixei sair estas palavras balbuciantes:

Ó Prometeu livre e condenado
Onde o castigo é redenção naquela tarde
Onde o animal te devora, onde me vou sendo fígado e castigo
E animal à mistura.
Mas de todos, quem é o mais castigado?

Falamos do Prometeu, ficamos de olhos postos naquela liberdade e naquele fogo de pensamento e o esquecimento é grande para a pobre águia que todos os dias, no final da tarde, ao pôr-do-sol, querendo ou não, tem que o comer, devorar, para depois, numa espécie de loucura, voltar a crescer e a ser comido... até onde vai o castigo que devora?

Em que tarde a perdição foi encontro e onde somos Prometeu e Águia conjuntamente?

Quão grande castigo é este que se comete para ser furtado à possibilidade de haver possibilidade. Este poço, este fundo sem fundo, esta queda na qual vamos sendo isso, não tem retorno, não tem fim, não tem um termo, apenas cair, sempre, até não haver mais queda: na realidade, não existe fundo, ou piso de segurança, ou qualquer coisa que nos valha, somente a queda, sempre a cair e a aprendizagem com esse cair...


Caio e continuo: eis o que sou – uma queda sem retorno.

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