sexta-feira, 18 de maio de 2007

Expressão


Imagem tépida, endurecida
Olhar fechado, frio
Tábuas de moradia, estranho
Cantares perdidos, momentos
Mãos coladas, dor
Pé juntos, caminho
Ar podre, pulmões
Nome, um destino.

O Sul mostra a sua face pelo direito
As searas cantam a brisa
As vindimas prenhes
Uivam com as matilhas e alcateias.
Há tanto de vida, de sangue, de herança
Tanto há.

A custo se vê o que não há
A custo se sente que não há
A custo se pede o que não há
A custo se toca o que não está.

Um assunto resolvido
Uma espiga e um moinho
Uma lápide que nunca teve mão.

Cheiros laminados, cozidos e esfregados
Odores de coisas que nunca senti
Um vazio que não tem nome
Que não tem figura
Que não tem sentimento
Que não tem paz.

Dou-te a minha paz, paz que não tenho
Arranco de mim um bocado de ti
Para tu seres aí melhor que foste aqui
Em mim o que nunca soube que eras em ti.

Dou-te aquilo que me falta
O que não tenho
O que nunca tive
O que em mim será sempre ausência
Aquele lugar de expressão
Por preencher, por encher
Por ser.

Arranco de mim um perdão que não tenho
Porque não há culpa figurada
Porque não há sentimento sentido
Porque não há desejo e atracção.
Parado.

Lavro em mim essa realidade
Essa herança que te deixo levar
A enterrar

Abre os olhos ao menos uma vez
Olha em ti o que de mim há
Cheira e saboreia o que ficou indo
Canta, sem voz, aquilo que ficou no silêncio
Obra, com as mãos, os pés de caminhadas
Por encetar.

Diz ao menos que sim
Que há tempo quando não houve
Que há hora quando era findou
Que há qualquer coisa onde há nada.

Dou-te a minha voz
A minha palavra
Aquilo que sou
Para seres depois.

Reticências

E a história resolveu-se
Escreveu-se sem pena, sem tinta
Foi tomando forma e lugar
Foi lançando nas palavras por dizer
Qualquer coisa como coisa qualquer.

Enunciação,

representação,

manifestação,

frase,

locução,

palavra,

aspecto,

fisionomia,

vivacidade,

animação,

expressão:

feneceu.

Foi na vida que a seara se talhou, nesse campo lavrado, nessa vindima executada: uma seara que acusa o Outono. A corda tanto esticou que viu o seu termo, a ponta tão final que foi horizonte do princípio, daquele início onde o parir, gemido e sangrento, relatou a miséria de começar a viver nas entranhas para viver sem elas. Não há história, nem distância, não há realidade ou memória, não existe um traço que possa ficar, onde ficou, para poder contar, relatando, ao sol a espiga de trigo amadurecida, mais pela terra, do que pelo sol. Faço um convite à expressão, a esse movimento direccionado, a essa realidade visível, para poder ver aquilo que a memória não recorda como lugarejo, faço o convite.

23 de Agosto de 2006
Dia da Santa Rosa de Lima

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